Entre médicos há, hoje, muitas situações que configuram assédio no trabalho. A realidade transporta-nos a diversas características humanas que se tornam maiores, hiperbólicas até, quando o colega ofende ou apouca outro para se esquivar de uma tarefa, para não ser perturbado nas suas rotinas. A sobranceria técnica e a pesporrência científica são um dos pilares do assédio no trabalho. A ignorância, o desinteresse, a falta de boa formação são outro pé da mesa. Uns descuram informar-se e assumir decisões, empurrando de modo ligeiro o trabalho. Outros exigem competências e definições de fronteiras para territórios de ganha-pão, mas quando estas acumulam trabalho ofendem-se. Só alguns podem operar doença varicosa, mas, se as complicações de varizes surgem, já não são do cirurgião vascular em urgência. Só alguns podem assumir decisões sobre patologia urológica, mas se há muita demanda porque não decidem outros menos diferenciados? Assim ganham espessura as fronteiras entre saberes e assim se constroem regulamentos, normas e protocolos que aumentam os custos, criam gastos excessivos, levam a saúde para o incomportável. O acesso à saúde vem do medo distribuído a rodos pela comunicação social e a sensação subjetiva de perigo ao menor problema. O recurso democrático às urgências converteu-as em territórios desaconselháveis. Havendo tudo ao dispor, havendo facilidade em exames complementares e construída a desresponsabilidade sobre qualquer assunto, os cidadãos levam um corte de 1 cm, uma borbulha com três meses, uma comichão de uma década, a qualquer hora, à urgência, consumindo os recursos e esgotando o sistema. Noventa por cento dos exames realizados servem o descanso das almas médicas e de doentes, sendo rigorosamente normais. Estas pessoas, tal como as que precisam realmente, entram com prioridades e encaminhamentos cada vez mais adulterados pelo sistema para retirar ocupação a muitos, e forçar exaustão aos tarefeiros. Especialistas exigem o seu emprego com menos trabalho, descarregam o seu mau humor, produzido por horas sem fim em urgência, sobre os tarefeiros. Todos pedem exames e sobrecarregam o sistema para evitar decisões clínicas. Afinal, o que distinguia os médicos de todos os outros, era a abordagem clínica, a perceção de risco e o encaminhamento sólido dos utentes. Mas agora os utentes querem realizar exames e dispensavam os médicos se fosse possível. A sabedoria, a experiência, não transportam segurança aos consumidores de exames. Só que a experiência engana-se e os exames também. A diferença é que um homem pode corrigir o engano numa nova observação. O relacionamento entre pessoas deve ser, pois, o pilar do serviço de saúde e deixou de o ser. O assédio do utente sobre o funcionário, dos funcionários entre si, determina parte da situação de cansaço que se verifica nas Urgências em Portugal.


