Opinião de Albino Bárbara: A história da garrafinha

Escrito por Albino Bárbara

No salto em queda livre, logo após a explosão da aeronave, Gibreel Farishta compete com o lírico Saladin Chamcha para ver quem chega primeiro ao solo. Gibreel ganha e, por ironia do destino, ambos aterram perto um do outro num sítio longínquo onde o sol castiga mais e, de imediato, sabe-se lá porque artes mágicas, Farishta adquire um halo luminoso em volta da cabeça, enquanto Saladin é brindado com um valente par de cornos e uns chispes descomunais.
Nesta disputa entre o bem e o mal, Xito não sabe o que fazer com o estranho objeto caído do céu, que era, nem mais nem menos, que uma garrafa de Pepsi-Cola atirada borda fora de um avião, a qual provocou na pacata tribo Sana, em pleno deserto de Chihuahua, o maior reboliço, gerando desentendimentos, disputas e guerras pela posse do estranho objecto durante vários dias.
Xito, o líder da tribo, depois de muito pensar, decidiu que o melhor para resolver a situação era ir em peregrinação até ao monte mágico do fim da terra e, lá do alto da montanha, atirar a garrafa “yankee” por ali abaixo e, em seguida regressar à tribo, restabelecer a paz e a ordem na terra onde o pecado nunca existiu.
O que o bom do Xito não sabia é que o percurso havia de se revelar difícil e interessante ao mesmo tempo, que se iria cruzar com uma série de personalidades, uns caçadores de ideias, outros pastores de chibas e bodes e uns quantos farsolas, trastes e fanfarrões.
Xito, homem bom e bem-intencionado, desconhecia o que era a sociedade do plástico. Mesmo assim mete-se ao caminho e, como o caminho faz-se caminhando, passados alguns quilómetros, encontra uns tais manos de Itália que depois de o cumprimentarem levam-no para o hotel 5 estrelas onde o aguardava um belíssimo jantar, a convite do seu proprietário: o dono do circo Grillo.
O nosso homem assiste pela primeira vez a um corrupio de figurantes, tendo ficado boquiaberto com os palhaços Atchim e Espirro, um deles, Javier, com postura duvidosa e um cabelo empastado de gel, tipo vassoura, cantando em parceria com o outro, o Vítor húngaro, uma ópera bufa, num trolaró de troca o passo, imitando a figurinha do momento: apropriadora, belicista, controladora, arrogante, autoritária, ordinária e megalómana: o poderoso pato Donald. Xito riu-se muito, achou muita piada, divertiu-se, bateu palmas e no dia seguinte prosseguiu viagem.
Por volta do meio-dia encontra uma atraente mulher, Georgia de seu nome, que o convida para almoçar. Chegados ao restaurante, apresenta-lhe a cozinheira, Marine. Xito pega na ementa e verifica que aquilo eram pratos muito esquisitos e extremamente caros. Olhou à volta e verificou que os fregueses eram gente com quem não se identificava e aí pensou: este tasco não é para mim. Não é de confiança. Assim, deu meia volta e sem se despedir foi embora.
No final da tarde, já muito perto do meio do caminho, dá de caras com um tipo alto, meio loiro, sentado ao redor de uma fogueira, que, com um ferro em brasa, tenta tirar uma pulseira da perna. Cumprimentou o individuo, riu-se da situação e sem mais demora decidiu continuar viagem. Que raio. Coisa estranha disse ele para os seus botões.
Mais à frente deu de caras com Santiago, que conversava animadamente com Pé de Feijão e percebeu que ambos estavam a arquitetar a melhor forma de lixar o Pedro, dizendo, este último, que tinha maioria no Senado e agora é tempo de acabar com a geringonça das tapas variadas e do tinto de verano.
Quase a chegar, o nosso homem, decide dirigir-se a um porto de abrigo para pedir informações de como alcançar o topo da montanha mágica do fim da terra. O funcionário que o atendeu (estavam lá mais 59, mas só este sabia como a coisa se faz) informou-o que, para percorrer os últimos quilómetros, tinha de ir com muita cautela porque a partir dali só havia malandros, chulos, corruptos, subsídio-dependentes, imigrantes e ciganos, todos a viverem à custa da barba longa e que ele, sim, lhe daria toda a informação correta, sem qualquer conversa da treta e, como gajo porreiro, que dizia ser, lhe ensinaria um atalho para chegar ao cimo do monte muito mais depressa, nem que fosse apenas e tão só em passos de coelho.
Xito desconfiou, achou que aquilo era palavreado barato, espremido não dava nada, a bota não batia com a perdigota, mas o tipo insistiu dizendo que tinha ali os 59 funcionários e mais um milhão e setecentos mil seguidores.
Pois é… Quando a esmola é grande o pobre desconfia, Xito, vindo das profundezas do deserto, entendeu por bem seguir o caminho Seguro e deixar-se de a-venturas, até porque quem se mete por atalhos mete-se em trabalhos.
A 1.056 metros de altitude, no topo da montanha mágica do fim do mundo, o líder Xito cumpriu a missão que se tinha proposto. Atirou com a garrafa de Pepsi-Cola monte abaixo e, sem mais demoras, decidiu regressar para junto dos seus, pensando que agora, sem o objeto da discórdia, o bom povo voltaria a viver em paz. Grande engano.
Ao chegar à tribo, Xito depara com Gibreel e Saladin e aí percebe que “depois da guerra, nada fica igual” e, com os olhos repletos de lágrimas, olha em redor e vê aquele pequenino povo de Sana, instalado no único oásis do deserto de Chihuahua, onde, antes de ele partir, todos se respeitavam, se entreajudavam e viviam felizes. Afinal… o mal tinha acontecido. A paz, a harmonia, a felicidade jamais seriam as mesmas e, mais dia menos dia, o amor poderá transformar-se em ódio, a paz em guerra, a verdade em mentira, a fartura em fome, a liberdade em escravidão.
E tudo isto por causa de uma pequenina garrafa de Pepsi-Cola que certo dia caiu do céu atirada por alguém que viajava num avião.

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Albino Bárbara

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