Opinião de José Quelhas Gaspar: O risco de oferecer a paz a quem prefere a força

O recente gesto de María Corina Machado, ao entregar a sua medalha do Prémio Nobel da Paz a Donald Trump, foi apresentado por alguns como ousado, estratégico, quase nobre. Terá sido, dir-se-á, um ato de coragem: sacrificar o símbolo maior de reconhecimento da paz mundial para obter apoio para a causa da liberdade na Venezuela.
Mas quando se olha com atenção, o que este gesto revela é um perigoso precedente. Porque não é apenas uma medalha que se oferece. É uma mensagem. E essa mensagem tem consequências.
Ao louvar um líder que despreza acordos internacionais, que cultiva o confronto e que exalta o uso da força, corre-se o risco de transmitir ao mundo que o poder da violência compensa, que se pode impor pela força e ser, ainda assim, celebrado. Num tempo em que os equilíbrios geopolíticos são frágeis e o direito internacional é cada vez mais posto em causa, este gesto enfraquece o valor da paz e fortalece o culto da força.
É verdade que Trump não se tornou formalmente um laureado Nobel. Mas o símbolo e a sua exploração mediática não precisam de reconhecimento formal para fazer estragos. O que este gesto transmite é que o uso da força para resolver disputas pode ser premiado, legitimado, até santificado. E isso deve preocupar-nos.
Porque o que começa com uma medalha pode continuar com intervenções militares não autorizadas, capturas de líderes, colapsos de Estados e novas vagas de instabilidade. Se um líder global, com ambições autoritárias e discurso belicista, se vê aclamado por uma figura da oposição democrática como salvador, que leitura fariam outros regimes? Que lição tirariam Pequim, Moscovo, Ancara ou Teerão?
A própria invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, foi justificada com uma narrativa de libertação e segurança regional, enquanto violava de forma flagrante a soberania de um Estado independente. O mundo ainda hoje lida com as consequências humanas, políticas e económicas dessa ação e com o desafio de conter uma lógica em que a força suplanta o direito.
A história oferece lições. Após a queda de Roma, quando as instituições colapsaram e a força substituiu a lei, a Europa entrou num longo período de fragmentação, violência e medo. Não por ausência de civilização, mas porque as estruturas que a sustentavam ruíram, minadas por atos repetidos de força sem contenção.
Hoje não enfrentamos hordas bárbaras, mas corremos o risco de um mundo onde os princípios dão lugar ao oportunismo, e a estabilidade cede à insegurança permanente. Onde gestos simbólicos como o de Corina Machado se multiplicariam, abrindo caminho a lideranças que se sentiriam autorizadas a intervir, derrubar, subjugar. Tudo em nome de um bem maior que nunca se cumpre.
A emoção que este momento deve suscitar não é admiração nem esperança, mas um alerta sereno. A democracia não se defende com ofertas simbólicas ao autoritarismo. A paz não se constrói louvando quem prefere a força ao diálogo. E os povos que sofrem, como o ucraniano ou o venezuelano, merecem soluções duradouras, não alianças arriscadas que apenas adiam os conflitos ou os trocam por outros, maiores e mais difíceis de controlar.
Recusar este gesto, criticá-lo com lucidez, não é recusar a liberdade da Venezuela. É recusar que a imposição e o medo voltem a ser as línguas da política internacional. É recusar que Trump, ou qualquer outro líder de espírito semelhante, seja elevado a uma espécie de deus belicoso, que se apazigua com oferendas e reverências. O mundo já conheceu essas figuras. E pagou caro por isso.
Neste momento histórico, precisamos de coragem – sim -, mas de uma coragem que resista à tentação do imediatismo e do cinismo político. Precisamos de recordar que há gestos que, mesmo bem intencionados, podem incendiar mais do que apaziguar.
Porque transformar a paz numa oferenda para apaziguar ambições autoritárias é abrir caminho à sua própria destruição.

* Historiador/ técnico de Património

Sobre o autor

Jose Quelhas Gaspar

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