1. No seu discurso de Ano Novo, Marcelo, viúvo político de António Costa e que agora só serve para atrapalhar as reformas de que o país precisa, resolveu ir buscar à prateleira “A Ilustre Casa de Ramires” e citar o desiludido Gonçalo. Mas a Eça o que é de Eça e para um presidente falhado o que é para um presidente falhado. Fica bem aos políticos citar grandes escritores e conviver com nomes da cultura. Mário Soares deu o exemplo. Mas há limites. Marcelo foi cúmplice incontornável no estado a que o país chegou. Mas que agora, pasme-se, critica, como se nada fosse com ele. Marcelo devia antes pedir desculpa aos portugueses, pela sua cobardia e irresponsabilidade. Em vez disso, recorre ao mesmo Eça que lhe dedicaria um capítulo especial em “As Farpas”. E não necessariamente simpático. Mas ainda que quisesse citar algum personagem queirosiano, o mais adequado para ele seria o conselheiro Acácio, ou João da Ega. Já Alípio Abranhos seria demasiado cruel.
2. É fundamental distinguir um pormenor de um detalhe. Enquanto um pormenor está à vista de todos, bastando focar a lente, aumentar o zoom, ou duplicar a atenção para o identificar, um detalhe está, digamos assim, latente. Enquanto um pormenor faz parte da lógica do todo, reforçando a sua legibilidade, um detalhe não só lhe escapa, como a pode pôr em causa. Ou desmentir o que antes dávamos por adquirido. Ou fazer ruir a mais elaborada teoria. Ou desbloquear um impasse. Ou deslaçar um logro. Se desmontarmos um mecanismo e o voltarmos a montar, pode acontecer uma de duas coisas: ou o conseguimos refazer, embora haja sempre uma ou outra peça mais problemática, ou sobra realmente uma peça e não conseguimos voltar à primeira forma. Até pode acontecer que o mecanismo funcione, só que de forma diferente. No primeiro caso, a peça difícil é o pormenor. No segundo, a peça excedentária é o detalhe. Só para os adultos, é claro, pois para crianças isto seria simplesmente um jogo. Não por acaso se diz que Deus, ou o Diabo, se escondem nos detalhes. Como se a última palavra se ocultasse atrás do reposteiro, mas com um pé de fora. Para nos convidar e nos testar. Neste ponto, nem sempre é fácil encontrar o detalhe e ainda menos o seu significado. Isto vale para o quotidiano, como para a vida política, científica, tecnológica e investigação criminal. O segredo (e, não raras vezes, a solução) está no detalhe. E para lá chegar, é preciso saber escutar. Com tempo. No seu livro “A Lentidão”, Kundera explica isto muito bem.
3. As últimas sondagens colocam Cotrim em boa posição para poder sonhar. Por sua vez, Manuel João Vieira é o único candidato que irá seguramente à terceira volta. Eis ao que se resume o meu interesse por estas presidenciais. A idoneidade profissional dos candidatos tornou-se o grande tema destas eleições. Cresceu uma suspeição generalizada e que se tornou tema de cartaz. Presumindo-se que este escrutínio se mantenha durante a campanha. Há boas e más razões para isso. As más já as conhecemos. As boas transcendem a retórica eleitoral e tocam num ponto sensível da democracia. Vejamos o caso de Marques Mendes. No seu espaço de comentário semanal, Miguel Morgado explicou porquê. Saber se MM praticou actos ilícitos, ou a pronta divulgação da sua lista de clientes, é politicamente irrelevante. O que conta é a percepção criada de um enorme desfasamento entre os ganhos auferidos por MM e a utilidade social e económica da sua actividade de “consultadoria”. Um eufemismo para a acomodação de interesses privados na órbita do Estado. Ou seja, à semelhança de outros políticos retirados, MM capitalizou a sua notoriedade pública, rede de influências e conhecimento da máquina do estado. Objectivo? Promover o acesso de grupos privados a informação privilegiada, para captação de subsídios, contratos e investimentos públicos, concessões, outsourcing, etc. Em resumo, um facilitador de (bons) negócios para os seus clientes, que retribuíam generosamente. Uma mediação cuja utilidade pública é encarada como desproporcionada face aos rendimentos que proporciona. É este o combustível que vai alimentar um ressentimento cuja rentabilização irá determinar o resultado destas eleições presidenciais.
* No calendário vegetal celta, significa “Bétula”
** O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


