Opinião de Francisco Manso: Igreja da Misericórdia: os sinos

Escrito por Francisco Manso

Sino, coração da aldeia…

Coração, sino da gente:

Um a sentir, quando bate;

Outro a bater, quando sente”.

Sinos”, de António Correia de Oliveira

Igreja da Misericórdia

Os sinos

O sino é quase tão antigo quanto a civilização, mas a sua afirmação no ritual católico terá sido bem mais tardia, incentivada, diz-se, por S. Paulino. O uso de sinos generalizou-se com rapidez por todas as igrejas da cristandade, nas catedrais e grandes igrejas, ou numa humilde capela.

Mas a função do sino extravasa a componente eclesiástica, complementa-se com a social, de apoio à vida das comunidades. Um incêndio ou a aproximação de um inimigo, o nascimento ou a morte eram noticiados pelos sinos. O relógio, que se lhe associou mais tarde, era o relógio do povo.

Bênção dos sinos

Porque os sinos das igrejas não são meros objetos, são consagrados a Deus através de um ritual solene, que inclui unção com óleo e incensação. Por isso, devido à sua semelhança, popularmente, fala-se em “batizar o sino”. O sino tinha padrinhos e era lavado interior e exteriormente para significar que é instrumento de uma pura e santa religião.

O toque das Trindades e das Avé Marias, com a sua mensagem de fé e serenidade, ecoando pelas ruas e pelos campos, é, ainda hoje, um som que nos marca para toda a vida. E na Páscoa? Para a Missa da Ceia do Senhor, em Quinta-feira Santa, a Igreja recomenda o toque dos sinos “Enquanto se canta o Glória… e uma vez terminado, não voltarão a tocar até à Vigília Pascal”, e quando o sacerdote entoa o hino “Glória a Deus nas alturas” tocam-se os sinos, conforme os costumes locais. Relembro a tristeza que o cónego Eugénio da Cunha Sério sentia quando os oito sinos da Sé ficaram mudos, por se encontrarem muito degradados por falta de manutenção dos Monumentos Nacionais. Dizia ele, em 2008, «nesta Páscoa, tal como já aconteceu em anos anteriores, os sinos não vão tocar no Sábado de Aleluia a anunciar a Ressurreição de Jesus Cristo, como é tradicional na Igreja». Era uma tristeza partilhada por todos.

Já em 1500, o Sínodo da Guarda, reunido pelo bispo D. Pedro Vaz Gavião, mandava que se tangesse as matinas, as missas e as vésperas, «…querendo isto remediar, mandamos que os tais priores ou beneficiados ou seus capelães vão rezar cada dia todalas Horas em as ditas igrejas, tendo suas sobrepelízias vestidas e mandando tanger às Matinas Missa e Vésperas».

Os prevaricadores eram condenados «…em cinquenta reaes para o nosso meirinho ou para o nosso porteiro das audiências qualquer quee o primeiro demandar».

«As igrejas deviam abrir com as Matinas e encerrar com as Trindades: E nas aldeias onde se não disser missa cotidianamente as abras cada dia pela manhã e as cerre depois das oito horas, não abrindo mais aquele dia. E assim depois de sol posto tanga à Trindade por lembrança de nossa Senhora e de Jesus Cristo seu filho nosso Senhor».

A Igreja da Misericórdia

Desde sempre, a Igreja da Misericórdia levantou muitas interrogações aos investigadores, e muitas delas ainda perduram. Desde logo, quem foi o autor do projeto, quando tiveram início as obras e quando terminaram?

A torre direita sempre foi meio pagã, mais ao serviço civil que religioso. Seria do seu alto que era dado o toque a recolher, uma advertência para apagar fogos e luzes, um aviso ou alarme, ou uma notícia, pois nos diferentes edifícios onde a Câmara Municipal esteve instalada não há conhecimento de qualquer sino que o pudesse fazer. E não foi por acaso que, em 1871, a direção dos Bombeiros Voluntários pediu ao Provedor da Santa Casa autorização para colocar um aparelho de alarme nessa torre. Era uma pequena caixa metálica, com quatro chaves, que estava ligada com um arame ao sino que lhe ficava na vertical. Só há poucos anos foi retirada, aquando da recuperação da fachada do edifício. Ainda hoje é bem visível, a cerca de dois metros do solo, o local onde estava situada.

A torre do lado esquerdo é mais religiosa, não lhe conhecendo outras funções que as relacionadas com o culto. Curiosamente, já esteve várias vezes em risco de derrocada. Em 1904, os sinos ameaçavam cair e no ano seguinte era a própria torre. Esta situação teria sido causada pelas obras de alargamento da Rua Vasco da Gama, com a destruição do adro e do cemitério privativo da Santa Casa da Misericórdia, tendo o cunhal da torre ficado “descalço”, como voltou a acontecer nos anos 50 do séc. XX. Recentemente, em 2008, recebeu novas obras de consolidação.

Os sinos da Igreja da Misericórdia

Sobre os sinos da Igreja da Misericórdia, ou de outros templos da cidade, nem uma palavra, nem uma linha escrita. Talvez tenha sido esse facto que me intrigou e despertou a minha curiosidade, levando-me a um conhecimento mais aprofundado, que o simples olhar não dava.

Para isso, havia que subir às torres. Foi fácil, mas o mesmo já não se poderá dizer do acesso à parte exterior dos sinos, de forma a proceder ao seu registo e posterior leitura e decifração das inscrições lá existentes. O sino grande foi o que mais atenção nos mereceu, mas valeu a pena. Apresenta várias inscrições em relevo, bastante desgastadas. Uma delas, com marcas do fundidor, diz-nos: P. Valo Igual (ou Pablo Igual) me Fecit. Ou seja, ficámos a saber o nome do seu fabricante. Trata-se de P. Valo Igual pertencente aos Igual (ou Ygual), uma das famílias de “campaneiros” mais prolíficas de Espanha. Sediada em Arnuero (Cantábria), era terra famosa pelos seus fundidores, mas nunca foi referenciada, até agora, em Portugal. Uma outra inscrição, depois de decifrada, seria uma abreviatura de “Quantos… Nehemiae” (Quão grande… Neemias), uma dedicatória ou lema, típica de sinos religiosos. E há uma data, 1785, que é um elemento fundamental para a história do templo e da cidade.

A construção da Igreja da Misericórdia da Guarda

A instalação dos sinos tem um significado muito especial. É que corresponde, quase sempre, à fase final da construção de um templo, por isso, sabendo essa data, neste caso, 1785, podemos afirmar que nesse momento tinha terminado a fase arquitetónica da sua edificação. Assim, com base nesse e noutros dados, já podemos elaborar uma cronologia da construção da Igreja da Misericórdia.

Cronologia da construção da Igreja da Misericórdia da Guarda

1773, 9 de setembro – Escritura de contrato das obras de pedraria da capela-mor;

1773, 11 de setembro – Escritura de contrato de risco e entalhamento da tribuna da capela-mor;

1785 – Fundição e colocação do sino grande;

1796, 28 de fevereiro – Escritura de contrato de risco e entalhamento dos altares laterais.

1982 – Pintura dos revestimentos exteriores da igreja, limpeza dos retábulos de talha dourada.

1986 – Consolidação das fendas das torres e do coro alto.

1987 – Restauro da farmácia.

1988 – Substituição da cobertura do edifício sul.

2025 – A imagem da Virgem da Misericórdia, colocada na fachada da Igreja da Misericórdia, caiu e partiu-se. Anteriormente, tinha sido colocado um lambril de azulejo; substituído o teto da sacristia, e restauradas a fachada e torres sineiras.

Sino grande. Foto Isabel Bandurra

Curiosidades, apenas:

– Em 1882, José Matias Horta, músico do Regimento de Infantaria 12, encontrava-se a ajudar a decorar o Passo do Senhor quando caiu uma enorme peanha do trono e lhe esmagou a cabeça, provocando-lhe a morte imediata.

– Em 1888, um rapaz de Argomil, Pinhel, morreu entalado pelo badalo, enquanto tocava, entusiasmado, o sino grande.

REFERÊNCIAS:

CORTÉS, Ricardo Erasun. A fundição de sinos no Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro. OPPIDUM número especial, 2008.

MANSO, Francisco. Revista da Santa Casa da Misericórdia, junho de 2017

MANSO, Francisco. Revista da Santa Casa da Misericórdia, setembro de 2017

MANSO, Francisco. Revista da Santa Casa da Misericórdia, dezembro de 2017

SEBASTIAN, Luís. História da Fundição Sineira em Portugal: do Sino Medieval da igreja de São Pedro de Coruche à actualidade. Coruche: Museu Municipal, 2008.

SIPA. Edifício e Igreja da Santa Casa da Misericórdia da Guarda

VILLAN, Miguel Angel. Maestros campaneros, campanas y su fabricación en Valladolid y su provincia: (siglos XVI a XVIII), 1998.

 

Igreja da Misericórdia. Ao lado, antiga praça de táxis.

 

Sobre o autor

Francisco Manso

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