Maria João Pires é uma das mais notáveis pianistas do mundo e uma das figuras mais relevantes da cultura portuguesa. A sua grandeza é tal que a sua biografia pode ser resumida de forma simples: tocou com toda a gente e em toda a parte do mundo, com as melhores orquestras e nos palcos internacionais mais conceituados. Bastavam estas palavras, que um dia o jornalista Bernardo Mendonça escreveu como “lead” de uma entrevista ao “Expresso”, para nos sentirmos pequeninos perante a dimensão de Maria João Pires. Mas quem acompanha as notícias de cultura ao longo dos últimos 50 anos sabe que é mesmo assim: Ela tocou com toda a gente e em toda a parte do mundo – ela é não apenas a maior pianista portuguesa de todos os tempos, como é uma das maiores pianistas contemporâneas do mundo!
Para além do piano, Maria João Pires sonhava ter um «sítio», um laboratório de experiência das artes e de aprendizagem musical, um território artístico e de vida cultural, um local de partilha, fruição e aprendizagem, um mundo de conhecimento, ensino e educação. «Um dia sonhou um lugar de liberdade e utopia», esse dia chegou em 1999 e criou o Centro Cultural de Belgais, em Escalos de Baixo, no distrito de Castelo Branco. Para muitos era um projeto excessivamente arrojado, muito à frente do seu tempo, com um novo olhar para o ensino, e que nem todos quiseram perceber como uma porta para um novo mundo onde a arte e a cultura eram o ponto de partida para uma nova dimensão na aprendizagem e formação. Mas era também uma ilha, uma ilha num deserto imenso que era um país de costas voltadas para a cultura e que não queria mudar.
Muito para além dos prémios acumulados, Maria João Pires adorava estar na natureza e teve a coragem de se instalar no interior profundo de Portugal, numa aldeia da Beira Interior, longe dos grandes palcos, distante das elites e do aplauso conhecedor, para interpretar peças de Mozart e Chopin entre a apanha da azeitona e o arar a terra. Um atrevimento. Um laboratório de experiências e arte, que enfrentou dificuldades, e acabou por durar só uma década. Criado em 1999 como um projeto educativo, pedagógico e cultural, com impacto na região e que chegou a ter o apoio do Ministério da Educação, foi perecendo pela falta de apoio. A região nunca percebeu o imenso potencial e relevância do projeto – era ter aqui o que que muitos vão procurar longe… Um projeto que deveria ter sido um farol para outros, e que deve ser recordado e replicado, com apoios, como formato de desenvolvimento regional, porque a cultura é a maior alavanca de progresso.
A pianista recebe, no sábado, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva porque o júri a considera como uma «extraordinária intérprete», uma «educadora visionária», uma «pensadora cultural e uma revolucionária silenciosa no domínio do património mundial». As suas mãos, de dedos pequenos, que já tocaram em pianos nas principais salas do mundo, estiveram há dias na apanha da azeitona. Maria João Pires vive hoje longe dos palcos, trocou-os pela terra e o contato com a natureza e confessa, em entrevista à Renascença: «Já não sou pianista». Aos 81 anos, e depois de sofrer um AVC, Maria João Pires está a vender a sua propriedade, em Belgais, onde instalou o Centro de Artes. Chega ao fim um dos projetos artísticos mais extraordinário do interior, um símbolo da visão humanista da arte e da educação, promovendo o encontro entre música, natureza e comunidade. Ficamos todos a perder! E muito! Obrigado Maria João!


