Durante o tempo da Covid-19, a relação dos prestadores de saúde com os doentes nunca foi pior. Da minha carreira, guardarei essa experiência como a mortificação dos cuidados, do humanismo. Os doentes, mesmo que relativamente bem, com testes positivos, eram armazenados em instituições e colocados em total indignidade em quartos. Aguardava-se que os testes ficassem negativos, num encarceramento de semanas. Pressupunha-se que todos carecessem de ventilação, o que realmente não se passou. O número de ventilados, do total de positivos foi relativamente pequeno. Houve instituições onde se ficava no mesmo espaço de quatro pessoas, sem janelas, com porta fechada e fezes num balde, que um personagem de escafandro apareceria para retirar cada oito horas. Nauseabundo o quarto, inenarrável o estado de abandono dos doentes, foi aquilo que se decidiu fazer para combater um vírus respiratório. Depois criou-se uma obrigatoriedade burocrática que colocava como morte por Covid qualquer doente que tivesse cancro, fosse acidentado grave, fosse enfarte do miocárdio, mas o cotonete na narina positivasse. Nesta altura, as Ordens dos Médicos e dos Enfermeiros estiveram entre os arautos dos maus-tratos, as trompetas do medo.
Escrevi na ocasião um texto duro sobre os números do que testemunhei. Afinal, eu estava lá, numa unidade dedicada apenas a Covid-19.


