Coisas como os últimos resultados eleitorais são difíceis de entender. Como se um dos nossos maiores problemas não fosse o envelhecimento da população, por baixa natalidade, e a subsequente falta de mão de obra, ganharam-nas os partidos que se propunham acabar com a entrada de imigrantes, seguidos pelos que defendiam a expulsão dos mesmos. Assim, sem tirar nem pôr, coisa que, de resto, parece não preocupar ninguém. Claro que por a cota não bater com a perdigota (os migrantes tendem a orientar-se no sentido de quem do trabalho deles precise) não terá passado pela cabeça de ninguém que, à boleia da política anti emigração, se lembrassem de passar também às políticas anti mães e anti trabalhadores. Ora coisa mais incompreensível de se aceitar como boa do que esta é difícil de imaginar e mais difícil de imaginar será que tanta gente acabasse a concordar com tamanha incompreensibilidade, elegendo quem assim a arquitectou e impingiu.
Bem se sabe que o nosso caminho para a aceitação do incompreensível costuma começar cedo, mal nascemos já estamos a ser batizados. Depois disso, presumo, qualquer um suporá – e com razão – que seja muito mais fácil convencerem-nos de que, para o bem e para o mal, por vontade divina, o mundo será o que tiver de ser e que percamos a capacidade de o questionar. Daí que talvez nem seja assim tanto de admirar que, mesmo perante as evidências mais nítidas, haja quem queira continuar a defender o indefensável e a promover o condenável sem quaisquer pruridos éticos ou morais. Afinal, a vontade divina não se questiona e muito menos se contesta: é divina. O problema é que, como boa divindade, a essa entidade nunca ninguém a viu e, sem a conhecer, não há como saber o que diz ou deixa de dizer. O que muito jeito tem dado a quem as quer por a proferir as coisas mais excêntricas e inaceitáveis, desde que dê lhe jeito. Podem até ser coisas diferentes, consoante a forma e o tempo do jeito que necessitem. Pouco importará. Ao fim e ao cabo também não será por derivar do divino que se poderá exigir a alguém que a sua cartilha seja impermeável a todas as nuances necessárias a cada um dos seus propósitos.
Assim blindada, a menos que aconteça algum, mais do que muito improvável, milagre, deixa de ser possível esmiuçar a intenção de quem nos impinge as regras mais punitivas sustentada nas teorias mais perniciosas. O que deveria ser mais do que suficiente para nos impedir de defender o que é contra nós, só por acharmos que com isso nos afirmaremos contra o outro. Mas parece que não, seja por isto ou por aquilo, há sempre alguém disposto a querer convencer e alguém a querer ser convencido de que tudo o que de mal se fez, ou foi por um bem maior ou não foi tão mau como isso. Seja de que maneira for, até o mais incompetente, o mais mentiroso ou criminoso, por razões que a razão cada vez conhece melhor, há de arranjar quem o defenda.
Opinião de Fidélia Pissarra: Talvez nem tudo deva ser uma questão de fé
«Assim blindada, a menos que aconteça algum, mais do que muito improvável, milagre, deixa de ser possível esmiuçar a intenção de quem nos impinge as regras mais punitivas sustentada nas teorias mais perniciosas.»


