Há objectos que são verdadeiras viagens à história da Guarda, autênticos guardiões de lembranças, de sentimentos de pertença, de identidade local. Um deles, para nós que aqui crescemos, foi o mealheiro em forma de casa, oferecido pelo antigo Montepio Egitaniense, uma entidade bancária da nossa região, da nossa cidade e que tinha o nosso nome, como marca da nossa identidade egitaniense gravada na cerâmica e para sempre gravado na memória.
O Montepio Egitaniense não era apenas um banco. Era um símbolo de confiança local, de enraizamento, uma prova de que a Guarda era forte e farta, tendo instituições próprias, com corpo, rosto e alma egitaniense. Aquele mealheiro, feito de louça, era mais do que um simples objecto. Era oferecido com um gesto cerimonial, representando o início da responsabilidade, do valor, do esforço e do orgulho de pertencer uma comunidade, como a da Guarda, que educava na poupança, capacitação e na construção de um futuro com propósito. Ainda hoje, muitos de nós guardamos esse tesouro como uma relíquia que, no fundo, é.
Essas memórias entrelaçam-se com outras, igualmente fortes, da adolescência vivida no compasso tranquilo e cúmplice de uma cidade de interior. As noites de verão no Jardim José de Lemos não eram uma distração. Eram uma tradição. Havia música ao longe, conversas em voz baixa e sonhos indomáveis, nascidos da ousadia e acesos pela saudável provocação. A par com o famoso “muro em frente à Polícia” transformava-se em palco e plateia de uma juventude que se descobria a si própria, noite após noite, sem ciberespaço de amizade virtual que nos distraísse do que mais importava: a presença uns dos outros, uma rede social de amizade real.
E adicionalmente, havia ainda algo que dava ritmo à cidade, a saudosa fábrica da Renault. Produziam-se ali as famosas 4L, símbolo de uma época em que a indústria automóvel deixava a sua marca em pleno coração da Beira Interior. O dinamismo que a fábrica trazia à Guarda era visível nas famílias que ali encontravam sustento, na economia que se movia ao som das máquinas e no orgulho de ver sair daqueles pavilhões um automóvel que percorria o país e a Europa inteira com o selo “feito na Guarda”. Para muitos, era o primeiro emprego, para outros, a base de um projeto de vida, para todos, era motivo de orgulho, de pertença e de futuro.
Nesses tempos, a Guarda tinha mais esperança e menos resignação. E, sem nos darmos conta, conseguimos construir um património invisível mas indestrutível que é o das memórias partilhadas, dos sítios que nos moldaram, dos gestos simples que hoje, vistos à distância, revelam uma profundidade comovente.
Hoje, quando passo por esses lugares, ou vejo os um desses mealheiros antigos, ou encontro uma 4L a circular com teimosia pelas estradas do país, lembro-me que há coisas que resistem ao tempo. E que, mesmo sob a vigília dos cumes imponentes da serra, ergue-se a promessa eterna de que na Guarda, as memórias aquecerão o coração e iluminarão o caminho, conduzindo-nos ao destino anunciado de sermos, para sempre, fortes, fartos, formosos, fiéis e frios… mas apenas quando o inverno assim o exigir.
* O autor escreve ao abrigo dos antigos critérios ortográficos


