Provavelmente, à terceira, serão os sintomas do cansaço da maioria dos portugueses que surgem em todo o seu esplendor. Mais do que da corrupção e dos escândalos protagonizados por políticos, a julgar pelas escolhas feitas, a não ser que já se tenham esquecido do homem das malas e do que foi apanhado em despropósitos com um menor, estarão cansados do estado social e da nossa constituição. Desses e de pagar impostos.
Fartos do acesso ilimitado a cuidados de saúde, através do SNS, à educação e às subvenções de velhice e doença. A julgar pelos resultados eleitorais, a menos que não tenham entendido as propostas dos diversos partidos, incluindo aqueles em que votaram, será do que se trata. Tal como se tratará do seu anseio por passar a tratar da saúde e da educação onde bem lhe aprouver e, muito importante também, por, alegadamente, deixarem de continuar a pagar impostos. Ou, pelo menos, não pagar tanto como acham que pagam. O que, em democracia, é mais do que legítimo. Pode não se conseguir encontrar qualquer lógica ou sensatez nas escolhas feitas, mas não será por isso que deixará de ser legítimo. Viver, ou deixar de viver, sem as garantias do estado social que a nossa Constituição prevê, em democracia, ainda que possa ser difícil de definir, depende, mesmo, da orientação do voto de cada um.
Importará, por isso, tentar perceber o que é que, desta vez, além do provável cansaço, terá influenciado essa orientação. Segundo as diferentes bandeiras partidárias, a julgar pelos resultados destas eleições, poderá ter sido por a democracia ter alcançado o seu auge e perfeição ou esteja muito perto disso. A igualdade de género, a justiça e equidade social, serão hoje percepcionadas por muitos como efetivas e, por também já não haver trabalhadores, operários, pensionistas que dependam das reformas para viver, são cada vez menos os que se identificam com as propostas dos partidos de esquerda. Consequentemente, os contribuintes deixaram de encontrar propósito para os impostos, achando exagerado que tenham de continuar a sustentar serviços que, na cabeça deles, deixaram de fazer sentido. Para quê continuar a pagar serviços de saúde, educação e segurança social se já ninguém precisa deles para viver?
Estas terão sido as razões para aqui termos chegado. Só podem ter sido. Se não foram, é porque os eleitores andarão muito confundidos e inverteram as próprias prioridades a favor das de outros. O que, considerando a sabedoria popular, também não será lá muito plausível. Depois de tanta escola, tantos programas televisivos, tantas redes sociais virtuais, não há quem não perceba bem tudo e de tudo e esteja mais do que apto a escolher conscientemente o que mais lhe convém. Ou, então não. Foram mesmo enganados só que ainda não deram conta. Tudo é possível, mas, agora, só o tempo o dirá.
*A autora escreve de acordo com a antiga ortografia


