Debater para vencer

Provavelmente o melhor pedaço de análise política das últimas semanas, como sintetizou Francisco Mendes da Silva, no “Público”, terá sido o de Lili Caneças, quando resumiu nas caixas de comentários do Instagram da RTP, com uma frase curta e fatal, o sentimento geral sobre Pedro Nuno Santos: «Este homem parece que está sempre a ralhar com toda a gente». O ralhete da socialite, que terá nascido na cidade da Guarda com o nome de Maria Alice há 81 anos, levou o secretário-geral do PS a responder que era «simpático e bom rapaz» (Pedro Nuno respondeu de imediato percebendo logo o impacto deste comentário fora da caixa, mas, até por isso, viral e arrasador). Depois disto, a campanha já não era a mesma. Ou antes, o líder do PS não foi mais o mesmo, escondeu a veemência e intensidade habitual e passou a ser o resultado do que os marketeiros definiram – de vez em quando lá mostra o rugido da sua autenticidade… e, se calhar, o PS recuperou nas últimas sondagens graças ao regresso dessa natureza do líder, enquanto o «farol» Montenegro não consegue distanciar-se.
Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro interpretaram erradamente as consequências eleitorais da queda do governo (confiavam que os votos dos extremos voltassem para o centro), mas o Chega não deverá perder deputados e até pode aumentar a votação. Já a esquerda, enclausurada na sua mensagem da era industrial, não percebeu que o mundo mudou e viverá uma crise profunda – não será apenas Pedro Nuno quem irá viver uma noite de facas longas, será toda a esquerda, em especial Mariana Mortágua e a sua proverbial violência verbal.
No distrito da Guarda, todos os candidatos dos partidos com assento parlamentar tiveram oportunidade de esgrimir argumentos no grande debate no NERGA, na sexta-feira, promovido pelo jornal O INTERIOR e a Rádio Altitude em colaboração com aquela associação. E, esta quinta-feira, os cabeças de lista dos três partidos que elegeram deputados pelo distrito em 2024 voltam a debater na Rádio Altitude. Uma segunda oportunidade para Aida Carvalho mostrar por que foi escolhida pelo PS, se foi pelos méritos de gestora cultural ou se tem pensamento político, que no NERGA não se viu (para além de reproduzir a argumentação de Ana Mendes Godinho, não sendo como Ana Mendes Godinho…) – tem de ouvir outras pessoas e transmitir autenticidade que até agora não mostrou. E o mesmo se poderá dizer sobre Nuno Simões de Melo, do Chega, que não acrescentou nada ao que dizia na campanha de há um ano. Enquanto Dulcineia Moura, da AD, que no debate do NERGA voltou a não saber conviver com o elefante na sala (as portagens), terá oportunidade de mostrar conhecimento dos dossiês e a experiência adquirida num ano na primeira linha do grupo parlamentar do PSD.
Muitos assuntos ficaram de fora da campanha, ou dos debates, porque não é possível falar de tudo, mas exige-se aos candidatos a melhor preparação e o maior esforço para explicar quem são, ao que vêm e até que ponto merecem ser eleitos representantes do distrito. Até agora, viu-se muito pouco na defesa dos interesses regionais ou propostas determinantes para o nosso futuro coletivo, para além do discurso nacional do respetivo partido.

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Luís Baptista-Martins

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