(três) Semanas (a conta que Deus fez) num país aos zigues-zagues!

Escrito por Daniel Lucas

As últimas três semanas foram tudo menos monótonas. Num curto espaço de tempo, uma sucessão de acontecimentos revela bem a instabilidade. Entre apagões de energia ou zigues-zagues dos meninos “marrões” e/ou “baldas”, os confrontos do 25 de Abril, a morte do Papa Francisco e até alguma luz que teima em acender-se no interior do país. De tudo para “todos, todos, todos” os gostos e estados de espírito. (desculpem o desabafo: já cansa esta coisa do “todos” em palavras e sons!)
A primavera, essa estação que simboliza o renascimento, insiste em não chegar. E não falamos apenas do clima instável e sombrio, mas também de um tempo político e social que continua preso ao nevoeiro. Vivemos numa espécie de inverno prolongado, onde o diálogo é raro e os extremos preferem gritar e confrontar-se fisicamente do que construir seja o que for.
No meio deste turbilhão, a morte do Papa trouxe um inesperado momento de pausa. Independentemente da fé de cada um, a sua partida gerou um raro consenso de respeito e reflexão. Foi uma luz discreta, mas real, num tempo em que o ruído parece dominar. A serenidade com que se viveu e falou contrasta fortemente com os excessos e a violência verbal a que assistimos todos os dias. No meio desta interrupção solene, houve quem quisesse “animar a malta” com canções de parabéns, festas improvisadas e aquele ar de desafio à boa maneira dos Jotas! Como se houvesse um certo prazer maquiavélico em transgredir: fazer precisamente porque “não se devia”; “Ninguém manda em nós!”; Ou então: “Somos um Estado laico!”; o que é verdade, embora tendencialmente católico-cristão. Ou já não! Talvez já não saibamos ao certo o que somos se tivermos de ser alguma coisa… E se estes dias, afinal, foram uma espécie de ensaio social: desligaram a máquina por um instante? Seriam os dias de luto um laboratório improvisado sobre como se cancela a cultura, a voz de um povo? O silêncio imposto gerou mais incómodo do que muitas palavras gritadas.
Francamente, na minha opinião, todos e ninguém têm razão. Porque o que faltou não foi cultura ou respeito: faltou bom senso, faltou empatia nas escolhas realizadas. Sem transformar o luto em palanque político, convenhamos: festas há todos os dias, a todas as horas… Ter um espetáculo adiado poderia ter sido pretexto para outros encontros, juntar a família, rir com os amigos (sim, até à custa de piadas santificadas) ou dar uma parte do nosso tempo a quem pouco ou nada tem.
A comemoração dos 51 anos do 25 de Abril ficou marcada por episódios de confronto físico entre grupos opostos, num cenário que mais do que evocar a liberdade, evidenciou a sua fragilidade. Por momentos, a Avenida parecia a “Barbieland” em modo de crise, com os Ken em guerra por um trono cor-de-rosa imaginário, onde o poder se mede aos gritos, aos empurrões e com egos inflados até ao ridículo. Só faltou a coreografia e a prancha de surf. A diferença? Isto era vida real e a liberdade merecia melhor palco. Estes confrontos, de certo modo, revelam um sintoma mais profundo, a dificuldade crescente em conviver com a diferença. A tentativa de implementar visões fechadas que compromete o espírito democrático que tantos lutaram por conquistar.
Entretanto, longe dos grandes centros e dos grandes títulos, também no interior há movimentações. Na nossa “Village des irréductibles Guardix”, onde nem o frio nem o esquecimento fazem calar o povo, projetos que tinham sido travados começam finalmente a ter luz. Até parece pairar aquele novo hit «deixem “alguém” trabalhar»… não por mudança de vento político (?), mas por força da persistência de quem acredita que o desenvolvimento não pode depender de humores institucionais. Um sinal de esperança, pequeno, mas significativo.
Primavera, se me estiveres a ouvir, vem depressa. Não apenas com flores, mas com coragem, diálogo, compromisso e já agora com muita luz. Porque já não chega resistir. É preciso reconstruir. Assim seja!

Sobre o autor

Daniel Lucas

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