Pradial

1. Entusiasmados com as mirabolantes propostas que os 21 deputados nacionais irão fazer em Bruxelas, 29% dos eleitores decidiram encurtar um dia de praia, ver menos pornografia, parar de discutir futebol e adiar a visita ao shopping. O komentariado explica a exiguidade de tal surto dadivoso pelo desinteresse, desmotivação, desconhecimento, desmobilização. Errado. O problema está na escolaridade obrigatória e no encurtamento da weltanschauung (cosmovisão) promovida por uma educação raquítica e uma gritante menoridade cívica. Complicado? Depois explico. Seja como for, como em todas as eleições, os números só contam uma parte da história. A parte sumarenta é imaginada pelos actores políticos, com exercícios portentosos de retórica. Onde transformam derrotas em vitórias, derrotas retumbantes em derrotas relativas, empates desinteressantes em vitórias empolgantes, paradoxos em anástrofes, sufrágios locais que nada contam em desfechos epopeicos. Compreende-se. O empenho e o investimento de tantos numa campanha não podem ser desfeitos pela crueza dos números, assim, sem mais nem menos, sem dar luta. Feitas as contas, nota-se que a qualidade média dos deputados baixou. Os do PS são fraquinhos. Do PSD um bocadinho melhores. O populismo xenófobo da extrema direita afinal era um papão. Mas o populismo igualitário da esquerda radical continua de pedra e cal. Após o escrutínio, o PS cantou vitória. Todavia, se fizermos as contas só ao sufrágio expresso, descontando a abstenção, o partido da rosa obteve o voto de 10,2% dos eleitores! Mais coisa menos coisa, aqueles cujo nome aparece no Diário da República, graças a nomeações generosas, respectivos familiares e amigos, funcionários públicos contentes com as reposições, professores universitários que em vez de ideias têm obsessões ideológicas, a minha tia Leopoldina, and last but not least, a numerosa família do César insular. A plateia visível na sede de campanha era semelhante à de uma festa de casamento. Todos vagamente familiares, todos vagamente ex-activistas estudantis, todos vagamente nomeados mutuamente. E o que une esta tropa fandanga, num momento tão importante para a construção europeia? O combate à direita! É verdade. Esses demónios! Numa Europa assustada com a realidade, fazemos jus ao nosso atraso e infantilismo, acenando com fantasmas e papões. Ou seja, o PS não descola de um discurso jurássico para explicar um mundo multipolar, inorgânico, desestruturado, hobbesiano. Que é também uma rábula mais própria de uma seita do que de um partido que se diz moderno e progressista. Mas cabe perguntar: festejam o quê? Enfim, como cantava o Léo Ferre: “Je préfère le drapeau noir / À la marée en robe noire / Quand les goélands pour y voir / Préfèrent y voir de mémoire / Les corbeaux blancs de Monsieur Poe”.
2. Um idealista é uma criança descuidada, mas firme na sua ambição. Um sonhador é como uma vela que se vai consumindo lentamente e no final da festa se apaga. Embora cintilando a glória de uma generosidade sem audácia. O diletante, por sua vez, é um imitador. Prefere quase sempre o glamour do idealista, em vez do funambulismo do sonhador. Lembremo-nos do tremendo Ega, de “Os Maias”. Um homem do mundo, mas sem mundo para se equilibrar. Uma promessa de talento eternamente adiada. Portanto, o diletante é escravo do destino que criou para si. Persegue a forma, crendo que é o conteúdo. Fica sempre a meio do caminho que ele pensa ter chegado ao fim, para logo começar outro. Por isso, usar as vestes do idealista pode ser-lhe fatal. O idealista é o escravo forro que se libertou do seu destino. Mais ninguém, senão ele, provará os frutos mais doces, descobrirá música no crepitar do fogo, ou tingirá de oiro a crueldade com que o mundo o põe à prova.
3. Algumas notas acerca de um recente fim de semana em Lisboa. a) As trotinetas. As trotinetas. Mais trotinetas. Por todo o lado. A mobilidade urbana em versão descartável. b) Cinco séculos depois, a capital recuperou o estatuto de nova Babel.
c) Seja nos transportes públicos, nas esplanadas, ou nos espaços verdes, o cenário repete-se. A esmagadora maioria das pessoas está mergulhada nos seu smartphones. Muitas vezes, enquanto comunicam com quem está ao lado. Numa viagem de metro, ao olhar com atenção, percebi que praticamente todos os passageiros iam centrados nos visores dos seus aparelhos. Nem um estava a ler algo impresso, nem que fosse o folheto promocional do Lidl. Aterrador. Ocorreu-me que, neste panorama, a leitura é o acto de rebeldia mais poderoso contra o novo autismo de massas. O antídoto perfeito contra esta pandemia. A derradeira prova de vida.

Sobre o autor

António Godinho Gil

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