Para além da vitória do PS

O PSD perdeu nos concelhos dos candidatos (Gouveia, Figueira de Castelo Rodrigo e Seia), perdeu na Guarda e ganhou em Pinhel

No passado domingo, como se previa, a esquerda ganhou as eleições e o PS passou a ser a força política hegemónica – qualquer solução governativa tem de incluir o PS. Porém, o resultado é bastante mais plural que o inicialmente previsto.
Se o laranja ficou reduzido a quatro distritos no mapa do continente (Bragança, Vila Real, Viseu e Leiria) enquanto o rosa passou a dominar o resto do território, a verdade é que, apesar das condições extraordinárias e porventura irrepetíveis em que António Costa governou (juros baixos, crescimento, receitas de turismo recorde, o “diabo” não apareceu e oposição inexistente), o PS ficou aquém da maioria e não conseguiu capitalizar “todas” as vantagens da governação. Entre o nepotismo e Tancos, os portugueses preferiram disseminar as suas escolhas e o PS, na verdade, entre as legislativas de 2015 e 2019 recebeu “apenas” mais 120 mil votos.
Aliás, se no início da noite eleitoral o Bloco cantava vitória, no final da noite saíram pela calada com um resultado similar ao de 2015 – só o PS aproveitou a “geringonça”, o BE manteve 19 deputados, mas perdeu 50 mil votos e a CDU perdeu cinco deputados e 115 mil votantes.
A pulverização pelos pequenos partidos permitiu não apenas ao Livre chegar ao parlamento, mas também à Iniciativa Liberal e ao Chega – cujos tiques de extrema-direita não foram parados a tempo e cujas ideias xenófobas e populistas tenderão a receber mais apoio junto dos desiludidos de direita. Rui Rio acabou por salvar-se nos últimos dias e na noite eleitoral celebrou sobremaneira um resultado que foi conseguido entre os erros de Costa e o recentrar o PSD como partido de centro-direita – recuperando os indecisos conservadores que querem impostos mais baixos e menos Estado. Rui Rio demorou a perceber isso, mas ainda foi a tempo de recuperar alguns votos. Talvez não chegue para continuar a liderar o PSD mas permite-lhe dizer que teve muito melhor resultado que as expetativas iniciais anunciavam.
O distrito da Guarda é o arquétipo do que aconteceu ao PSD nacional, conquistando apenas quatro concelhos – curiosamente, perdeu nos concelhos dos candidatos (Gouveia, Figueira de Castelo Rodrigo e Seia), perdeu na Guarda e ganhou em Pinhel, onde supostamente, a atual liderança é contestada e que, como recordaria Carlos Peixoto na noite eleitoral para justificar o mau resultado, o partido estará dividido (pode estar dividido, mas votou unido no PSD).
O PS passou a ser também dominante no distrito da Guarda, ganhando em 10 dos 14 concelhos, e vencendo nos territórios dos adversários, mas, curiosamente, e apesar dos socialistas falarem em grande vitória no distrito cresceram percentualmente, mas perderam 85 votos comparativamente com as eleições de 2015 – se o PSD tivesse repetido coligação com o CDS teria eleito dois deputados. E no concelho da Guarda (para análise futura…) o PS teve mais 32 votos! Mas o PSD e CDS coligado perderam no concelho da Guarda 1.600 votantes. Para tudo isto pode ter contribuído a redução de eleitores (emigração), mas os que partiram não seriam só de direita…
A abstenção continuou a crescer, apesar de haver tantos partidos e tão diferentes propostas. E apesar das muitas justificações, inclusive o direito de não querer votar, as pessoas mais do que não se reverem no sistema, partem do pressuposto que o seu voto em nada irá mudar os resultados. E isso é o pior que pode acontecer em Democracia. A indiferença não constrói hospitais ou escolas e nada faz pelos portugueses, mas são precisos novos rostos, novas formas de atuar em política e valores e probidade que metade dos portugueses não encontram hoje nos partidos.

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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