Dizem-nos que Portugal é um país coeso. Depois olhamos para o mapa e vemos um corpo atlético com um músculo só: o litoral. Os 208 municípios menos povoados ocupam 65,8% do território, mas apenas 20% dos portugueses vivem neles; metade da população concentra-se em 31 municípios; cerca de 20% vivem em sete municípios que somam 1,1% do território. Isto não é uma nota de rodapé: é o índice do livro. Sem páginas no interior, não há país inteiro.
Em 2020, o Conselho de Ministros aprovou a revisão do Programa de Valorização do Interior. O título prometia: valorização, interior, programa. Cinco anos volvidos, o interior continua onde sempre esteve: longe. O problema não é a falta de PDFs; é a falta de trajetória. A juventude que cresce na Guarda, em Idanha ou em Mértola percebe cedo a diferença entre promessa e infraestrutura: entra num comboio três vezes por dia, em carruagens com idade para serem suas professoras, e faz 250 quilómetros em três horas e meia. É uma viagem e uma aula de geografia política.
A comparação com a Suíça não é um fetiche alpino, é um teste de realidade. A Suíça tem 41 285 quilómetros quadrados, quase nove milhões de habitantes e 5 000 quilómetros de linhas de comboio. Portugal tem mais população, é mais do dobro em área e tem cerca de metade da rede ferroviária: 2 526 quilómetros. Não é só uma questão de quilómetros de ferro: é o que eles significam. Linhas são tempo encurtado, oportunidades que passam a caber no dia, empresas que podem contratar sem pedir mudança de vida, serviços públicos que não se tornam um safari logístico. Enquanto discutimos metas e fundos, a vida perde correspondência diária.
A exclusão social no interior é frequentemente confundida com saudade. Não é. É logística, rendimento disponível, acesso a ensino e cultura, densidade de serviços de saúde, previsibilidade do transporte, qualidade da habitação, velocidade da internet e espessura do tecido económico. É o jovem que não pode aceitar um estágio porque a viagem consome metade do salário, é a estudante que precisa de dois autocarros para chegar a um laboratório, é a família que vê o médico de especialidade como um evento semestral em vez de um direito banal. Quando o interior fica sujeito ao calendário das boas intenções, os miúdos aprendem a fazer as malas antes de aprenderem a votar.
Há quem diga que a solução é “levar investimento”. Concordo, com uma condição: que não se confunda investimento com concessões de baixa exigência e projetos que tratam o interior como aterro de decisões fáceis. Substituir mosaicos agrícolas, soutos e montados por tapetes de painéis ou projetos pesados, sem ordenamento sério, é repetir o erro com outra cor. Crescer é possível e desejável, mas crescer certo dá mais trabalho: exige localização criteriosa, uso preferencial de solo já artificializado ou degradado, cadeias de valor locais e transparência nos contratos. É também aqui que a regionalização deixa de ser palavrão e passa a ferramenta. Não falo de replicar cantões suíços, falo de dar poder político e financeiro real a quem conhece o terreno, no presente e não apenas em cerimónias. Exemplos de liderança existem, não é preciso ir longe: o trabalho de autarcas como Paulo Fernandes mostrou, no terreno, que uma estratégia paciente e enraizada consegue atrair empresas tecnológicas, reconverter património industrial, ligar escolas a empresas e pôr cultura no centro do calendário. Falta escala, não falta método.
O país garante coesão social? No papel, sim. Na vida, só às vezes. A verdade incómoda é que a coesão não se declara, mede-se. Mede-se nos minutos entre um comboio e o seguinte, na probabilidade de um recém-licenciado conseguir emprego qualificado a 40 minutos de casa, na taxa de desistência do ensino superior por razões económicas, no tempo de espera por uma consulta de especialidade, na oferta cultural que não dependa de festivais sazonais, na existência de creches e lares que travem o êxodo invisível de quem cuida. Quando metade do país vive em 10% do território, a coesão é uma palavra que precisa de verbos.
O interior não quer ser um parque temático da autenticidade nem um armazém de megaprojetos. Quer trânsito humano quotidiano: estudantes, investigadores, empresas pequenas que crescem, médias que exportam, trabalhadores remotos que encontram banda larga que não pixela as reuniões, médicos que ficam porque há escolas para os filhos e teatro para os fins-de-semana. Isto não se faz com um decreto; faz-se com uma hierarquia de decisões: ferrovia antes de marketing, serviços públicos antes de slogans, habitação acessível antes de rooftops. E faz-se com aquilo que menos temos praticado: continuidade. O interior não precisa de mais inaugurações; precisa de manutenção.
Não peço uma Suíça transmontana nem serrana. Peço um país que olhe para os seus 2 526 quilómetros de linha e os trate como a espinha dorsal de uma política de juventude: mais frequências, material circulante decente, ligações transversais que evitem a fatalidade de passar sempre por Lisboa ou Porto, horários que respeitem a vida de quem estuda e trabalha. Peço que a revisão do Programa de Valorização do Interior saia do parágrafo e entre no relógio. Peço que a regionalização nos dê voz com orçamento, e que essa voz saiba dizer não quando o projeto não serve as pessoas. Peço que deixemos de tratar o interior como silêncio entre dois “hubs”.
Sei que isto parece muito. Não é. É só o mínimo para que um jovem de Penamacor, Bragança ou Aljezur possa responder, sem ironia e sem heroísmo, à pergunta mais simples do mundo: ficas? Quando essa resposta deixar de depender de um bilhete para fora, poderemos dizer que começámos a garantir coesão. Até lá, somos um país com uma grande ideia de si próprio e uma pequena rede a sustentá-la. E, como qualquer miúdo do interior sabe, ideias excelentes não chegam a lado nenhum se o último comboio do dia já partiu.
Sugestões deste mês:
Sítio Recomendado: Museu da Covilhã
Espetáculo: Danças Ocultas (5 de março, no TMG)
Docs de Apoio:
CGD – Saldo Positivo. “Ir viver para o interior: incentivos, vantagens e desafios.” 12-03-2025.
https://www.cgd.pt/Site/Saldo-Positivo/trabalho/Pages/ir-viver-para-interior.aspx
Resolução do Conselho de Ministros n.º 18/2020 – Aprova a revisão do Programa de Valorização do Interior (Diário da República).
INE – Censos 2021 (estatísticas municipais de população e densidade; concentração litoral).
PORDATA – Extensão da rede ferroviária (km), Portugal; e Infraestruturas de Portugal – mapa e ficha da Rede Ferroviária Nacional.
Suíça: FSO/USTAT (Federal Statistical Office) e/ou SBB CFF FFS – Relatório anual
CP – horários e material circulante
março, 2026 Romeu Curto


