Apesar do Nobel de Saramago e da fama mundial do outro, não conseguimos deixar de ser um país pequeno. Um país de cidades pequenas e de gente ainda mais pequena, porque não consegue fazer nada de maior. Portanto, tal como acontece com tudo o que é pequeno, no tamanho e nas ideias, não nos podemos admirar muito com o que aqui acontece quando alguém ambiciona crescer além dos limites do país onde nasceu: ou emigra ou, se reclamar, é logo encolhido à força.
Foi assim na ditadura, quando quem não se resignasse à miséria e à arbitrariedade de uns poucos, se não emigrasse era preso e, sabemo-lo agora, parece que alguém quer que continue a ser assim em democracia. Quando quem não se resigna, por não ter acesso a uma casa, se não quiser emigrar, tem de se conformar com as políticas de habitação, vigentes e a vigorar, para não levar umas bastonadas dos polícias que o atual governo deu em lhes lançar para cima.
Caso para pensar, pelo que se vai vendo e vivendo, que de pouco nos terá valido o esforço para formar melhor as novas gerações e renumerar melhor as menos novas. Ao que parece, dê por onde der, alguém, no caso, essencialmente senhorios e proprietários, se há de apropriar de qualquer melhoria de rendimentos que consigamos, acabando a mesma nos bolsos de quem tem imóveis para arrendar ou vender, dos bancos que facilitam o negócio, das imobiliárias que os promovem, das seguradoras e por aí fora.
Não que se tenha nada contra senhorios, proprietários, bancos, seguradoras e por aí fora. Bem pelo contrário, entenda-se. Todos são legítimos e muito necessários, mas num país atualmente governado por uma mini agremiação muito mais amiga dos ditos do que do resto dos cidadãos, tudo o que nos parecer ser de mais, é porque já será de mais.
Um de mais a que não serão alheios os tempos de performance facebookiana, em que tudo tem de parecer festa e as notícias com fotografias de pardais a catar a alpista, que os da situação gostam de lhes ir atirando, são as únicas dignas de divulgação massiva. Um demais a que também não serão alheios estes tempos dos indignados do sofá em que, numa evidente ostentação das fascizantes tendências atuais, patrocinadas pelos mentecaptos reinantes no outro lado do lago e pelos seus amigos de leste, dão em clamar contra pobres e emigrantes e enaltecer o respeito pela ordem. Um de mais para que também contribuíram, de resto, as análises e contra-análises do exército dos pressurosos comentadores televisivos, sempre tão diligentes no branqueamento da atual ação política. Um de mais a que as políticas que, do dia para a noite, aumentaram exponencialmente o preço da habitação tendo, anteriormente, fazer-nos supor que iria baixar ou, pelo menos, manter-se, nos levaram.
Claro que por saber ficará o epílogo deste malfadado romance em que quem defende a social-democracia e a moderação política é logo acusado de radical e extremista. Tido por perigoso e corrupto. Esquerdalha a abater pelos que evocam Salazar a propósito de tudo e de nada. Por saber ficará o impacto, destas inusitadas cargas policiais, em protestos futuros e na futura participação dos movimentos de cidadãos nas decisões governativas. Mas lá que tão descabida manifestação de prepotência política, acompanhada da nostalgia confessa por Salazar, não vaticinará nada de bom, não.


