Há infraestruturas que transcendem a dimensão material do investimento e transportam consigo a promessa de transformar o destino de um território. A inauguração do Porto Seco da Guarda representa uma oportunidade para o interior reclamar o protagonismo económico que a sua posição geográfica há muito justifica.
Entre o litoral português e a fronteira espanhola, a Guarda ocupa um lugar estratégico nas redes de circulação ibéricas. O Porto Seco poderá reforçar a ligação ferroviária aos portos atlânticos e aos corredores logísticos europeus, atrair investimento, dinamizar exportações e criar emprego. Mas a geografia, por si só, não produz desenvolvimento: são necessárias infraestruturas complementares e vontade de concretizar.
Na cerimónia inaugural, o presidente da Câmara da Guarda defendeu a construção das variantes da Sequeira e dos Galegos, essenciais para melhorar os acessos ao Porto Seco e permitir o encerramento das três passagens de nível ainda existentes na área urbana (nas linhas da Beira Alta e da Beira Baixa e que são as únicas que não foram eliminadas depois das muitas obras nas respetivas linhas; nos últimos anos houve nas passagens de nível da Guarda uma dúzia de acidentes graves e a morte de duas pessoas). Era legítimo esperar que, perante esta reivindicação, o ministro das Infraestruturas assumisse um compromisso claro, sobretudo quanto à Variante à Sequeira (supostamente, a Infraestruturas de Portugal tem o compromisso de as construir há meia dúzia de anos e os projetos definitivos terão ficado concluídos no mês passado).
Todavia, o ministro Miguel Pinto Luz preferiu sublinhar a importância do investimento, evocar a concordância da Mealhada e fazer a exaltação dos grandes projetos de Lisboa, que, segundo afirmou, serão pagos pelos utilizadores, e não pelo Orçamento de Estado – um recado para o interior. Em Lisboa as obras serão pagas pelo princípio do utilizador-pagador (serão?!), na Guarda terá de se ir aos bolsos dos portugueses… Sobre os acessos rodoviários ao Porto Seco da Guarda, porém, não houve um compromisso concreto.
É precisamente aqui que reside a questão essencial: não basta inaugurar uma infraestrutura com potencial estratégico; importa assegurar-lhe as condições para funcionar plenamente. Um equipamento logístico desta natureza não pode ficar condicionado por acessibilidades insuficientes, nem a cidade continuar a suportar constrangimentos que a construção das variantes poderá ajudar a resolver.
A Guarda não pede apenas reconhecimento pela sua posição geográfica. Precisa de decisões, calendários e investimento que transformem essa vantagem em desenvolvimento efetivo.
O Porto Seco é uma porta aberta ao futuro. Mas, para que o interior possa atravessá-la, o Governo terá de ajudar a construir os caminhos que ainda faltam. Porque inaugurar é um ato; cumprir os compromissos que dão sentido à inauguração é uma responsabilidade.


