Opinião de Joaquim Brigas: “Universidade para quê?”

Escrito por Joaquim Brigas

Há algumas semanas escrevi neste jornal que o verdadeiro valor da passagem a Universidade Politécnica seria medido pelo que fôssemos capazes de fazer a partir dela (“Preparar o futuro da UPG”). Entretanto, a UPG decidiu assumir uma nova ambição: evoluir para universidade plena.

É, por isso, legítimo perguntar: para quê?

A resposta mais simples é também a mais exigente: para reforçar a capacidade da UPG de servir o território.

Não faria sentido percorrer este caminho apenas para mudar uma designação ou alcançar um novo estatuto. Uma universidade vale pela qualidade do ensino e da investigação que desenvolve. Mas, numa região como a nossa, deve valer também pela diferença que consegue fazer à sua volta.

É essa a universidade que queremos construir.

Uma universidade próxima das empresas, capaz de pôr o conhecimento e a investigação ao serviço de novas soluções, como fizemos ao levar tecnologia de realidade aumentada à soldadura ou ao apoiar a criação de dez novas “start -ups”. Uma universidade que ajude a criar oportunidades para os jovens que aqui querem construir a sua vida e que seja suficientemente atrativa para trazer outros até nós.

Esta visão tem de envolver todo o território. A UPG tem sede na Guarda, mas está aberta a todos os concelhos do distrito e para além dele. Projetos como o Redfruit4health ou o INTERIOR+ já concretizam essa lógica, valorizando os recursos endógenos da região, desde a bebida funcional de frutos vermelhos aos menus saudáveis com produtos locais. Mais do que concentrar, queremos que o conhecimento gerado na UPG chegue a cada concelho, a partir daquilo que cada um tem de próprio.

A nossa condição de fronteira oferece-nos também oportunidades que devemos aproveitar melhor. A Espanha está perto. As universidades, empresas e instituições do outro lado da fronteira podem ser parceiros naturais, como demonstra o SER65+, projeto do Programa Interreg POCTEP Portugal-Espanha liderado pela UPG.

É neste sentido que vejo a universidade como uma âncora de desenvolvimento. Não porque possa resolver sozinha os problemas do Interior. Não pode. Mas porque pode ajudar a ligar aquilo que tantas vezes permanece separado: conhecimento e empresas, investigação e necessidades concretas, formação e emprego.

O passo que agora queremos dar deve, por isso, aumentar a nossa responsabilidade. Ser universidade plena terá verdadeiro significado se conseguirmos transformar uma maior capacidade científica e académica em maior capacidade do território para criar oportunidades, inovar, atrair pessoas e gerar riqueza.

Isso obriga também a universidade a mudar: a ouvir mais, a sair mais das suas instalações e a avaliar o seu sucesso também pelo que ajuda a acontecer à sua volta.

Não queremos ser universidade apenas para sermos maiores. Queremos sê-lo para sermos mais capazes: de produzir conhecimento, atrair talento, trabalhar com as empresas e criar inovação, projetando esta região no país, em Espanha e na Europa. Mais capazes, acima de tudo, de servir melhor o território.

Ser universidade não será, para nós, um ponto de chegada. Será assumir uma responsabilidade maior perante o território e o país.

 

* Reitor da Universidade Politécnica da Guarda

Sobre o autor

Joaquim Brigas

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