Cara a Cara

«Os vietnamitas são muito agradecidos a Francisco de Pina porque lhes facilitou a comunicação e a escrita»

Escrito por Sofia Pereira

P – Para quem não conhece Francisco de Pina, estamos a falar de quem?

R – Estamos a falar de um jesuíta que nasceu na Guarda em 1585. Jovenzinho foi estudar para Coimbra, onde entrou nos jesuítas, e, elevado por um ideal de missão, pediu para ir para o Japão. Tomou a carreira da Índia em 1608, ficou algum tempo em Goa e seguiu depois para o Colégio de São Paulo, em Macau, que funcionava na altura como uma espécie de universidade. Francisco de Pina saiu da Guarda com 20/21 anos e completou os estudos de Filosofia e Teologia em Macau. Após ser ordenado em Malaca, foi para a Cochinchina.

P – O que aconteceu para Francisco de Pina ter ido para a Cochinchina (atual Vietname) e não para o Japão, como pretendia?

R – Aconteceu uma coisa muito trágica para a história do catolicismo e dos jesuítas. Em 1614, ainda Francisco de Pina estava em Macau, os chefes do Japão expulsaram os jesuítas e os cristãos, mas alguns por lá ficaram clandestinamente e outros vieram para Macau. Nessa altura, alguns navegadores pediram aos jesuítas para darem assistência aos cristãos na Cochinchina, onde muitos fugidos do Japão se tinham refugiado. Os superiores de Macau criaram uma missão na Cochinchina e foi em 1615, logo após a ordenação, que Francisco de Pina vai para o atual Vietname.

P – Ali chegado, o padre Francisco de Pina foi diferente dos outros jesuítas, desde logo porque se dedicou a aprender a língua local e foi bem mais além…

R – Na Cochinchina, Francisco de Pina começou a encantar-se com a língua –já tinha alguns conhecimentos do japonês, que aprendeu em Macau – e percebeu a importância de aprender a língua local para pregar, profetizar e desempenhar as suas funções de envangelização. Dá-se então ao trabalho de investigar a língua, traduzi-la e entendê-la. Começa a falar com muitos jovens e a determinada altura apresentou a ideia aos superiores, em Macau, de fundarem uma casa nova – é a partir daí que surge uma espécie de “escola de aprendizagem da língua”. Começa aquilo que se chama a romanização da língua anamita – como se chamava a língua vietnamita. Este idioma tinha uma escrita como o chinês, com carateres ideográficos, nada tinha a ver com o abecedário latino. Francisco de Pina começou então a traduzir os sons e tons da língua local através de sinais diacríticos. A língua vietnamita tem letras romanas cheias daquilo que as pessoas julgam serem acentos, mas a mesma letra, a mesma vogal, pode ter dois ou três acentos, uns em cima e outros em baixo – isto significa que a vogal tem tons diferentes tendo em conta a quantidade de sinais diacríticos. São sinais lançados nas letras do alfabeto latino para dar os sons e os tons às palavras.

P – Através da aprendizagem e investigação, o guardense Francisco de Pina criou a escrita vietnamita que ainda hoje se mantém…

R – O objetivo foi ensinar quem viesse a seguir e para os próprios missionários conhecerem e aprenderem mais facilmente a língua local. Isto foi-se prolongando e, há cerca de um século, a escrita romanizada tornou-se a língua oficial do Vietname. É por isso que os vietnamitas são muito agradecidos a Francisco de Pina, porque lhes facilitou a comunicação e a escrita.

P – No século XVI, apenas um a três por cento da população sabia ler e escrever na Conchinchina. Depois da romanização da língua e do ensino da escrita, o cenário mudou exponencialmente. Porquê?

R – A língua anamita era composta por milhares de carateres e apenas os muito entendidos a dominavam. A maior parte das pessoas tinha um conhecimento muito rudimentar da língua e a romanização da escrita fez aquilo a que hoje podemos chamar de democratização da alfabetização do Vietname, e é isso que os vietnamitas hoje reconhecem.

P – Até certo momento a criação da escrita vietnamita (Chữ Quốc Ngữ) foi atribuída ao francês Alexandre de Rhodes. Quando se percebeu que, afinal, tinha sido criada por Francisco de Pina?

R – De facto, durante muito tempo foi atribuída a Alexandre de Rhodes, que foi aluno de Francisco de Pina na escola fundada na Cochinchina.

P – E por essa importância de Francisco de Pina na sua história que os vietnamitas têm um carinho especial pela cidade da Guarda?

R – Hoje, a Guarda é uma cidade conhecida no Vietname e a prova disso é que já é a terceira embaixada que vem à nossa cidade. A primeira trouxe um monumento que foi deixado no relvado da BMEL, a segunda veio assinar protocolos de comercialização e desenvolvimento industrial e desta vez foi a Associação para o Desenvolvimento e Difusão da Cultura Vietnamita, que esteve na Guarda com um espírito mais cultural e desportivo.

P – É um dos grandes impulsionadores da divulgação de Francisco de Pina e tem defendido a inclusão do nome do padre jesuíta na toponímia da cidade da Guarda…

R – Já tinha proposto que o nome de Francisco de Pina fosse atribuído a uma rua da Guarda, no entanto, não haverá muitas ruas que precisem de nome. Ainda assim, essa era a proposta dos próprios vietnamitas e o presidente da Câmara da Guarda acedeu, assegurando que o processo já está a andar.

 

Perfil:

António Salvado Morgado

Impulsionador da homenagem a Francisco de Pina, realizada recentemente na Guarda

Naturalidade: Quinta de Gonçalo Martins (Marmeleiro, Guarda)

Idade: 82 anos

Profissão: Professor (aposentado)

Currículo (resumido): Licenciado em Filosofia, foi professor do ensino secundário, docente na Escola do Magistério e na Escola de Enfermagem da Guarda e primeiro diretor executivo da Escola Secundária Afonso de Albuquerque, na Guarda.

Livro preferido: “O Fenómeno Humano”, de Pierre Teilhard de Chardin. Admira autores clássicos como Camões, Eça, Antero e o Padre António Vieira. É também leitor de Platão

Hobbies: Ler, pesquisa e investigação

Sobre o autor

Sofia Pereira

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