Cara a Cara

«Infelizmente, as pessoas que tinham alguma coisa para nos contar de genuíno foram desaparecendo»

Escrito por ointerior

P – De que trata este novo trabalho “Romances, só Romances”?

R – É o sexto álbum a solo, mas durante a minha vida toda são uns 18 ou 19 com grupos e participações. Este chama-se “Romances, só Romances”. É um trabalho que reúne 20 romances da nossa tradição oral e aquelas histórias que as pessoas contavam e cantavam à noite, ao serão, quando havia tempo para isso. Algumas delas são muito longas, são histórias que vêm desde as canções de gesta, da Idade Média, dos cavaleiros, e que foram prevalecendo na memória das pessoas pela transição oral, passando de boca em boca. Há temas de todo o país, de Trás-os-Montes ao Algarve.

P – Como é que César Prata se inspira para musicar estes temas?
R – As canções são tradicionais, quer a letra, quer a música. Não há nenhuma música, não há nenhuma canção que eu tenha feito. As canções são fruto de recolhas, minhas ou de outros, ou então de publicações em cancioneiros, porque também há muitos cancioneiros que reúnem este tipo de canções.

P – E ainda há muito terreno para desbravar no cancioneiro tradicional?
R – Para desbravar, sim. Agora, para recolher, acho que não, porque, infelizmente, aquelas pessoas que tinham alguma coisa para nos ensinar e para nos contar de genuíno foram desaparecendo e já não se encontra ninguém que tenha algo de realmente importante para partilhar connosco.

P – Este trabalho também é uma forma de preservar este património para o futuro, para as próximas gerações?
R – Sim, também tem isso em mente. Também há essa tentativa de ser um trabalho de preservação do património, trazendo-o para o nosso tempo, claro, porque as tradições morrem se não são renovadas e se não são atualizadas.

P – E porquê esta paixão de César Prata por este tipo de música?
R – Foi desde sempre. Quando aconteceu o 25 de Abril, eu tinha 10 anos e, a partir daí, houve um grande movimento de músicos e de grupos que foram, precisamente, às nossas raízes e que pesquisaram e cantaram. Eu apanhei, em termos musicais, essa onda, digamos assim. Depois, quando estudei em Coimbra, também estive no Grupo de Etnografia e Folclore da Academia (GEFAC) de Coimbra. Também me interessei sempre por instrumentos tradicionais, pela cultura popular, e quando fiz a minha tese de mestrado canalizei o meu esforço, o meu trabalho para isso. Portanto, é uma coisa de que gosto muito.

P – Depois da BMEL, onde vai apresentar “Romances, só Romances”?
R – O disco está disponível para circular, na medida do possível, para ser mostrado onde me queiram receber. Infelizmente, hoje é muito difícil colocar espetáculos onde quer que seja, por várias circunstâncias, é muito difícil chegar aos palcos.

 

CARA A CARA César Prata, músico e compositor, que acaba de editar o trabalho “Romances, só Romances”

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