Opinião de Fidélia Pissarra: A política da angústia

Escrito por Fidélia Pissarra

O medo que nos faz acreditar que a casa se enche de monstros quando apagamos a luz e nos obriga a parar perante o sinal de stop para não nos castigarem com uma multa, será o mesmo que nos leva a usar o modelo de sapatos que toda a gente calça e a ler os livros de que toda a gente fala. Porque, lá está, ter medo faz parte da vida. Sabemo-lo desde sempre. Nasce connosco e aprendemos a lidar com ele ainda antes de aprender a falar ou a andar. O resto do medo, o que não nasceu connosco, alguém tratará de no-lo ensinar ralhando-nos quando não nos portamos como é suposto, privando-nos do que gostamos, abandonando-nos se formos de muitas queixas e exigências. À falta de outro, sempre nos hão de tentar levar pelo medo. Essa coisinha muito linda a que, como se o pavor de ir parar ao inferno não passasse de uma forma do respeito que devemos ao diabo, o horror da peste e da guerra do que devemos a deus e o da fome do que devemos ao rei, os conservadores mais direitistas, eufemisticamente, dão em tratar por “haja respeito!”.
Hoje, mais do que usar os sapatos da moda, ler os livros da moda e cumprir a lei, sob pena de sermos gravemente penalizados, será mesmo em nome desse alegado “respeito” que nos querem convencer a agir como e quando alguém, arbitrária e autoritariamente, decidir que façamos. E, se dúvidas houver, bastar-nos-á perguntar aos países a quem os Trump, Putin e Netanyahu deste mundo, para desviarem a atenção dos próprios crimes, atacam sem dó nem piedade, para as desfazer. Ou aos juízes e procuradores, como Ivo Rosa, ou, aqui ao lado, Álvaro García Ortiz, a quem outros juízes e procuradores, num completo desprezo pelo Estado de Direito e pela separação de poderes, selvaticamente perseguem. Ou às mulheres e trabalhadores a quem o atual governo da nação, talvez contaminado pelas tendências ultra direitistas de outras paragens, quer retirar direitos, aparentemente, só por lhe parecer bem.
Infelizmente, bem pior do que o medo, cuja cara será a do mal que procura evitar, no caso, a par da guerra, a ameaça da imigração, será a angústia de não conseguir descrever o que sentimos quando o chão nos foge, de sentirmos que parece que nada há a fazer, enquanto tentamos fazer qualquer coisa que ainda possa ser feita nesta Europa que, até agora, nos tem protegido dos já institucionalizados desvarios de outras paragens.
Até agora. Porque, segundo o que por aí ecoa, a Europa que nos tem protegido da voracidade dos que querem ser senhores do nosso dinheiro, preparar-se-á para lhes ceder. Pelo menos, se a alteração do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados, que dizem estar a ser preparada, acontecer, da forma como dizem que acontecerá, expondo-nos, sem apelo nem agravo, a empresas de IA, como Google, Meta ou OpenAI, que passariam a poder recolher os dados pessoais dos europeus, inclusivamente através do acesso, sem necessidade de consentimento, remoto aos nossos PC’s e smartphones, assim o indicia. O que, por si só, bem poderá querer dizer que, depois desta política do medo, será bem capaz de nos vir por aí uma política da angústia.

Sobre o autor

Fidélia Pissarra

Deixe comentário