Opinião de Daniel Lucas: O mito, o regresso e o que vem a seguir

Escrito por Daniel Lucas

«O grande inimigo da verdade não é muitas vezes a mentira deliberada, mas o mito, persistente, persuasivo e irrealista». A advertência de John F. Kennedy não envelheceu. Atualizou-se.
Atualizou-se porque os mitos não desaparecem, transformam-se. Reaparecem sempre que o medo substitui a confiança e a incerteza ocupa o espaço da estabilidade. Esta última semana deixou isso evidente. A guerra no Irão deixou de ser um episódio distante para se tornar um fator multiplicador de crise energética, de tensão económica e de ansiedade social. Vamos ver o que se segue… morre um mito no Irão e outro quer tornar-se à força: Trump!
Quando o cenário externo se agrava, o discurso interno endurece. Cresce a procura por líderes firmes, por vozes seguras, por soluções rápidas. É neste ambiente que os mitos encontram terreno fértil.
Os mitos surgem quando há vazio. Quando o presente não satisfaz, convoca-se o passado. A política tem esta tentação recorrente de transformar homens em símbolos e símbolos em soluções.
A nível nacional o regresso mediático de Pedro Passos Coelho veio confundir as contas. Não porque tenha apresentado um programa novo, mas porque a sua simples presença reordenou o tabuleiro. Trouxe consigo uma aura de moralista, de transparente, de verdadeiro. Deram-lhe essa moral e esse estatuto. Mas, vem diferente. Mais carregado. Mais agreste no olhar. Mais convicto no tom.
E aqui começa a questão essencial. Que Passos Coelho é este? Não é apenas o antigo primeiro-ministro que uns recordam como símbolo de rigor ou para além do rigor. Será, hoje, um posicionamento político que se aproxima perigosamente de um determinado campo ideológico que outrora o seu espaço rejeitava.
Pedro Passos Coelho é, neste momento, uma fronteira esbatida entre a social-democracia clássica e outra coisa. Onde o debate tende a organizar-se entre responsáveis e falhados, certos e errados.
Dirão alguns que exagero. Mas vejamos. Quando o discurso endurece no conteúdo, mesmo mantendo compostura na forma, a diferença pode tornar-se apenas estética. Por exemplo, André Ventura construiu-se pela rutura verbal, pela provocação explícita, pela divisão clara entre “nós” e “eles”. Passos Coelho não precisa de gritar. Tem colocação de voz. Tem disciplina verbal. Tem controlo de registo. Mas, quando a narrativa política começa a reduzir a complexidade a linhas morais rígidas, a pergunta deixa de ser sobre estilo e passa a ser sobre substância. Mas, a substância pode aproximar-se. É um André Ventura com classe? É um discurso estruturalmente semelhante, apresentado com outra gramática? A pergunta é incómoda, mas é legítima. Porque não foi este Passos em que muitos democratas votaram. Não foi esta tonalidade que muitos associavam à matriz social-democrata.
O problema dos mitos é simples, enquanto são símbolo mobilizam; quando são confrontados com a realidade governativa deixam de poder viver apenas da projeção coletiva. Há ainda outra dimensão estratégica. Enquanto o antigo líder reaparece com firmeza ideológica, Ventura nunca esteve tão calmo. As entrevistas tornaram-se pausadas. O gesto é mais contido. O discurso mais medido. A serenidade pode ser cálculo. Na política, quando um ator sobe o tom ideológico e outro desce o volume emocional, alguém está a redesenhar espaço. Passos Coelho pode tornar-se o calcanhar de Aquiles do seu próprio campo. Porque quanto mais se concentra nele a expetativa de “salvador”, mais se cristaliza a dependência simbólica. E quando a dependência substitui o debate, a democracia empobrece.
Entretanto, cá no burgo da cidade mais alta, os casos continuam a acontecer. Narrativas paralelas. Suspeições. Acusações. Desrespeito pelas entidades e pessoas. Pequenas guerras de bastidores. Quem ganhou? Quem perdeu?
A política local é um laboratório reduzido do que se passa no plano nacional, entre mitos urbanos, leituras enviesadas e vitórias proclamadas antes de tempo. O país vive num permanente ensaio de expetativa. Sempre que a ansiedade coletiva aumenta, cresce também a tentação de simplificar o complexo. De dividir o mundo entre puros e culpados. De acreditar que basta uma figura certa para corrigir um sistema inteiro. Não basta. A política exige negociação, compromisso, equilíbrio institucional. Exige densidade democrática. Exige contraditório. E, sobretudo, exige memória completa.
No meio disto tudo a pergunta permanece: estamos a escolher líderes ou a construir mitos? O problema nunca foi acreditar. O problema é acreditar sem examinar. É aceitar sem questionar. É substituir debate por reverência.
No nosso pequeno retângulo reorganizam-se equilíbrios. Lá fora, acumulam-se conflitos. A economia sente. As famílias sentem. As instituições testam-se. E nós, enquanto sociedade, oscilamos entre a esperança e o cansaço. Talvez a questão maior não seja quem regressa ou quem se prepara. Talvez a questão seja outra: estaremos a aprender alguma coisa com este ciclo permanente de mitificação e desilusão?
A guerra no Irão pode perpetuar a crise económica e social. A instabilidade política pode aprofundar divisões internas. E a tentação de procurar salvadores pode tornar-nos mais frágeis enquanto comunidade democrática.
Será que vamos esperar até 2045 para renascer o humanismo e a diplomacia? O problema nunca foi a falta de líderes. O problema é quando deixamos de ser cidadãos.

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Daniel Lucas

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