Opinião de Daniel Lucas: Entre o ruído e o granito

Escrito por Daniel Lucas

As presidenciais voltaram a expor uma fratura que atravessa o país muito para lá dos candidatos. Não é apenas André Ventura contra António José Seguro. É uma disputa entre dois modos de estar na política, duas linguagens, duas ideias de poder e de futuro e, sobretudo, duas formas de olhar o povo português.
André Ventura ocupa o espaço do ruído. É reativo, fala sem pausa, interrompe, provoca, empurra o adversário para o erro e para a irritação. A sua estratégia não é nova nem subtil, desgastar, desestabilizar, irritar. Criar conflito permanente. Não para construir soluções, mas para dominar o palco. É uma política de choque, onde a forma se sobrepõe ao conteúdo e onde o objetivo não é convencer, mas cansar. Funciona porque vive da emoção imediata, do aplauso rápido e da indignação constante. Mas é uma forma pobre e perigosa de fazer política. Porque quando a política se transforma apenas em barulho, o debate morre e a democracia empobrece.
É por isso legítimo perguntar se o que André Ventura faz é, de facto, política ou apenas ativação de revolta fácil. Qualquer um de nós, em determinado momento da vida, torna-se reacionário perante uma injustiça concreta, quando a empresa nos trata como descartáveis; quando a saúde falha; quando um professor é obrigado a viver longe da família; quando as forças de segurança não são tratadas com dignidade; quando há idosos isolados e sem retaguarda; quando a justiça parece ter dois pesos e duas medidas; ou quando a própria natureza se revolta e a resposta política falha.
Sentir indignação é humano. Transformá-la em método permanente de ação política é outra coisa. Foi assim que muitos ditadores, de esquerda e de direita, chegaram ao poder, criando ódio, alimentando frustrações, apontando culpados simples para problemas complexos. Para isto não é preciso projeto, basta raiva organizada.
Do outro lado, António José Seguro apresenta-se como uma figura de Estado. Sólido, preparado, conhecedor das instituições e da história democrática do país. Transmite serenidade, estabilidade e sentido de responsabilidade, qualidades raras num tempo de excessos. Mas a serenidade, por si só, pode não chegar. Seguro precisa de mais voz firme, de mais pulso, de mais presença. Precisa de ser, em alguns momentos, um príncipe de granito, alguém que escuta, mas que também marca posição; que compreende, mas não hesita; que está acima do ruído, mas não distante do povo.
Há, porém, um dado essencial que não pode ser ignorado, André Ventura não joga necessariamente para ganhar estas presidenciais. Joga para consolidar espaço. O seu objetivo é garantir um número confortável de eleitores que lhe permita chegar às legislativas com força, influência e margem negocial. Ventura alimenta-se da instabilidade. Um governo fragilizado, um Orçamento que não passa, um país em tensão permanente, tudo isso lhe serve. Voltar “a jogo” faz parte da sua estratégia. Não quer pacificar, quer prolongar o conflito.
É aqui que o cenário se torna mais complexo. Um eventual bom resultado de António José Seguro teria um efeito mobilizador no campo socialista. O Partido Socialista sentir-se-ia legitimado, reforçado, talvez até confiante para disputar novamente o poder. Mas, esse mesmo PS enfrenta um desafio profundo, precisa de repensar a forma como faz política e, sobretudo, a forma como pensa o país e as regiões. O mundo mudou. As angústias são outras. A política já não pode limitar-se à gestão técnica nem ao discurso herdado; não pode, em última instância, perder-se em discussões estéreis sobre se a enxada é da cooperativa ou de quem a comprou, enquanto o campo continua por lavrar. Tem de enfrentar, sem medo e sem slogans fáceis, temas como a migração, a economia, os impostos, o trabalho, a justiça e o lugar de Portugal num mundo em transformação.
Estas presidenciais são, por isso, mais do que uma escolha entre dois nomes. São um teste à nossa maturidade democrática. Queremos continuar a premiar o ruído, a provocação e a política do desgaste? Ou queremos exigir firmeza tranquila, autoridade ética e visão de longo prazo? Revolta não é programa eleitoral. Ódio não é visão de futuro. Representar e/ou governar um país exige mais do que saber onde carregar no nervo certo da indignação coletiva.
A Presidência da República exige essa combinação difícil entre elevação e proximidade, entre calma e autoridade moral.
Entre o grito e o granito, o país terá de escolher. O grito vive do momento. O granito atravessa o tempo. E essa escolha dirá muito sobre quem somos e sobre quem queremos ser.

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Daniel Lucas

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