Opinião de António Godinho Gil: Saille*

1. Um dos momentos zen virtuais da minha preferência acontece quando me dirijo às funcionárias da charcutaria, nos supermercados, e peço 200 gramas disto ou daquilo. Digo sempre bem alto o género do peso pretendido. Esperando sempre pelo olhar dela, apreciador, grato, melífluo, rendido perante tamanho e insólito acerto gramatical. Que ela arrume a bata, descalce as luvas, tire a touca, liberte os cabelos, suba para o balcão e cante bem alto, apontando para mim e chamando a clientela: “és tu, só tu, finalmente chegaste/ e eu, tão só, porquê tanto tempo folgaste?!” Entretanto, subia eu também e rematava o dueto: “és tu, só tu, por quem sempre sonhei/ são gramas, mas de ouro, que por ti ganhei!” Seguindo-se uma sessão de sapateado pelos corredores, capaz de fazer inveja à dupla Fred Astaire/ Ginger Rogers.
2. Embora não sendo uma especificidade local, na Guarda a cultura é uma mostra rotativa, embora permanente, de individualidades. São sempre os mesmos que aparecem nos mesmos sítios a falar sobre as mesmas coisas. Não falha. São as “notabilidades” residentes a perorar sobre isto e aquilo. Sem que haja um esforço de diversificação, uma abertura ao risco, a certeza da pluralidade de opiniões e experiências. A coisa é mais grave quando, havendo responsabilidades públicas relativamente à comunidade, os painéis mediáticos têm sempre a mesma composição. Uma fatalidade. É certo que esta ortodoxia beneficia os egos que convidam e são convidados. Infelizmente, perde a cidade, pois esta visibilidade monocórdica não promove a qualidade, mas o hábito. Não cria adrenalina, mas satisfaz a preguiça. E obriga quem se expressa artisticamente a um esforço redobrado para se fazer ouvir.
2. É comum pensar-se que, num primeiro encontro amoroso, ou até mesmo durante a fase preambular, é o tempo certo para se descobrirem afinidades, se revelarem características e circunstâncias pessoais, se criarem lampejos de cumplicidade. Os narcisistas até vão mais longe, antecipando os gostos do outro e aderindo a eles sem pestanejar. Creio que é uma estratégia errada. É certo que as setas de Cupido impedem algum comedimento durante o exórdio. Não é que tapem a luz do sol, mas empolgam o efeito da meia luz. Encorajam confidências em tom melífluo. Criam memórias comuns que só existem para os próprios. Mas a ordem de prioridades não devia ser essa. Até porque é justo pensar que as afinidades dão trabalho. As cumplicidades precisam de tempo para se instalar. Por isso mesmo, nunca se devem. nomear qualidades antes de se apontarem os defeitos, as limitações, os embaraços. Sobre as primeiras, é preferível confiar que haverá tempo e oportunidade para elas se revelarem. Já quanto ao resto, o melhor é despachar logo o assunto e não esperar que apareça pela porta das traseiras e comprometa tudo aquilo onde se chegou.
4. Quando tudo colapsa, já não podes apelar a nenhuma das vozes dos passageiros do autocarro que vão sempre atrás de ti. Nem compor, a partir dessas vozes, aquela polifonia que gostas de mostrar, para melhor te enganares a ti e julgares que enganas os outros. E quando passares a editar a memória passa a ser o que dá mais trabalho? E quando pressentes que, sem essa maquilhagem, o presente se tornaria insuportável? E que a mínima trepidação nessa loja das porcelanas e dos cristais, onde arrumaste o passado, pode acordar o elefante que a estilhaça com estrondo, ou os monstros que te irão perseguir? Não esperes que os outros se interessem pelos segredos alquímicos que vais improvisando para sobreviver. Estão demasiado ocupados com os seus. A não ser que algum derrame químico os torne simbióticos. E que o nosso destino de guerreiros clandestinos se torne apresentável.

* No calendário vegetal celta, significa “Salgueiro”

** O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

António Godinho Gil

Deixe comentário