Opinião de António Godinho Gil: Luis *

. Multiplicam-se as personalidades públicas, da política e da inteligentzia que, em nome do que acham ser a democracia, do que acham ser o humanismo e do que acham ser uma ameaça existencial, apelam ao voto em Seguro. Naturalmente, é um direito que lhes assiste. No entanto, temo que estejamos a assistir a uma corrida para a salvação da alma cívica, digamos assim. Dando cheques em branco sem exigir qualquer garantia. Leonor Beleza apoia Seguro, sem reservas. Moedas é sem entusiasmo. Cavaco é por causa da estabilidade. Marques Mendes juntou-se à procissão, não se sabendo bem porquê. Eanes chegou e disse: “Seguro amigo, conta comigo”. Podia continuar, já que os exemplos de subscritores deste Plano Poupança Reforma presidencial não faltariam. A direita que apoia Seguro não é a “democrática”, a “civilizada”, mas a do Parque Jurássico. A que vive num país que já não é o mesmo. Dizia Foucault que o maior golpe de génio do catolicismo foi, graças ao purgatório, ter criado uma dívida cujo pagamento é eterno. Ainda assim, até à reforma protestante, no séc. XVI, a Igreja criou um expediente para amenizar as penas infernais: a indulgência. Mediante certas acções piedosas e um tributo pago ao Papa, fixado de acordo com as posses do prevaricador – desejoso de escapar ao catálogo de indizíveis torturas infligidas por íncubos e súcubos sedentos de acção – a Igreja intercedia junto do divino para que as penas fossem amenizadas. A garantia de um purgatório com quarto particular, ar condicionado e TV com canais para adultos. Ou seja, uma espécie de remissão da pena temporal, um “salvo-conduto” para purificação em vida. Não um perdão de pecados em si, mas uma diminuição da “dívida” para o Purgatório. Sabemos como isto acabou, após Lutero ter denunciado o expediente, na porta da Igreja de Wittenberg.
O que agora se passa no país político é algo semelhante. O apelo ao voto em Seguro funciona como um certificado de bom comportamento “democrático”. Atirando para o outro lado o estigma da agitação, da instabilidade, do tumulto, da corrosão do regime, da ordem constitucional e toda uma galeria de fantasmas recorrentes. Em rigor, trata-se de uma presunção elidível, como se diz no direito. Até porque a única vez que o regime teve verdadeiramente os seus fundamentos em perigo foi com Sócrates. Mais preocupante ainda é o eleitorado de Ventura ser diariamente destratado. Uma atitude que, convenhamos, é muito pouco democrática. Cabe ainda dizer o seguinte: acabaram os educadores do povo, as indicações de voto, os eleitorados cativos. Portanto, a chantagem e a destituição cívica deixaram de funcionar. Não faz qualquer sentido que, uma parte do país que já tomou posição quanto ao próximo acto eleitoral, exija que a outra, que ainda não o fez, se pronuncie. O contributo original destas eleições é serem determinadas pelo medo. Nunca se viu nada assim. Na verdade, o principal argumento de ambas as candidaturas é o medo do outro. Uma chantagem em que parece estar em causa uma ameaça sistémica ao regime, esconjurada unicamente pelo voto no lado certo. Duas narrativas que encaixam como peças de um puzzle. Ventura acena com o «sistema», «as elites contra o povo», «os tachos e a corrupção». Por sua vez, Seguro (e, ainda mais, quem declarou que iria votar nele) ameaça com o «fascismo», com os perigos de um «devoto de Salazar» como PR, a «bandalheira», as «instituições em perigo», a «instabilidade crónica», etc. Todo um cardápio de terrores, que transformam uma ida a uma secção de voto num ingresso no comboio fantasma, numa feira. Para lá dos fiéis e convertidos, os candidatos tomam os restantes eleitores como estúpidos, ou pueris. Pela minha parte, terão hoje uma resposta condigna.

2. Habituei-me a perceber os outros fundamentalmente por um número restrito de qualidades, ou falta delas. E, mais ainda, pela coerência dos seus actos relativamente às suas palavras ou às suas convicções. Ora, como se costuma dizer, aqui é que a porca torce o rabo. A precaução assume especial acuidade no caso das convicções políticas mais ruidosas. E que nada tem a ver com uma consciência política exigente e iconoclasta. Deixemos agora de parte esta última questão. Refiro-me às contradições flagrantes entre o discurso e a prática, entre o acolher de slogans que enchem o ouvido e a sua negação no dia a dia. O fenómeno assume particular gravidade naquelas pessoas que perfilham ideários onde pontua a “generosidade”, a “solidariedade”, a “qualificação”, o “respeito pelos outros”, etc. Conheço várias pessoas que se enquadram nesta descrição. No entanto, as suas acções não só desmentem como parodiam as suas inefáveis convicções. Alguns nem hesitam em enganar, abandonar os outros precisamente quando estão mais expostos e mais frágeis, mover-se exclusivamente por interesses egoístas, etc. Toda uma escola de “virtudes” onde só é enganado quem quer…

* No calendário vegetal celta significa “sorveira”

** O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

António Godinho Gil

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