Opinião CUF de Mariana Conceição: Apneia do sono: não ignore os sinais de alerta

É comum acreditar que ressonar alto é apenas um hábito barulhento, ou que é normal acordar cansado após sete ou oito horas de sono. Na verdade, estes podem ser sinais de alerta que apontam para a apneia obstrutiva do sono. Trata-se de uma condição de saúde pública mundial, que afeta entre 9% e 38% da população em geral. A sua prevalência aumenta com o avanço da idade, sendo mais comum em homens acima dos 40 anos e em mulheres após a menopausa.
Esta patologia provoca paragens respiratórias repetidas ao longo da noite, impossibilitando a passagem do ar. Isto obriga o cérebro a “despertar” por breves segundos para retomar a respiração normal, impedindo, assim, um sono profundo.
É frequente que as pausas respiratórias sejam testemunhadas por quem dorme ao lado, ou até pela própria pessoa, que pode acordar com sensação de asfixia, boca seca e dores de cabeça matinais.
O impacto no dia a dia traduz-se em fadiga e sonolência excessiva nas atividades rotineiras, como a condução, podendo surgir dificuldades de concentração e memorização, bem como irritabilidade e diminuição da libido.
Sem tratamento adequado, esta doença faz aumentar significativamente o risco de problemas cardiovasculares – hipertensão arterial de difícil controlo, acidente vascular cerebral, arritmias e enfarte agudo do miocárdio –, diabetes tipo 2 e até demências precoces.
A boa notícia é que a apneia do sono tem tratamento eficaz. Em primeiro lugar, deve ser tentada a correção dos fatores de risco, principalmente a perda de peso, uma vez que esta é uma condição fortemente ligada à obesidade. Medidas adicionais podem ajudar a controlar os sintomas, designadamente a redução da ingestão de álcool à noite e de determinados medicamentos, bem como evitar dormir de barriga para cima.
O diagnóstico é feito através de um Estudo Poligráfico do Sono, através do qual o período de descanso é monitorizado, permitindo a identificação das paragens respiratórias.
O tratamento médico convencional e mais eficaz consiste na utilização permanente de um aparelho, durante a noite, que mantém as vias respiratórias abertas, garantindo um fluxo de ar contínuo. A cirurgia pode ser uma opção, mas apenas em circunstâncias muito particulares, como anomalias nasais ou craniofaciais.
A privação de sono, isto é, dormir menos do que precisamos, é um problema gritante da sociedade moderna e a principal causa de sonolência durante o dia. Dormir é um pilar fundamental da saúde, pelo que não devemos ignorar os sinais de alerta de que existe um problema. Se acorda cansado ou com a sensação de sono não reparador – mesmo depois de ter aumentado o tempo que passa a dormir e adotado padrões regulares de sono –, o melhor é falar com o seu médico para despistar, e tratar, uma eventual apneia do sono.

* Pneumologista no Hospital CUF Viseu

N.R.: Esta secção é uma colaboração mensal do Hospital CUF Viseu, na qual os seus profissionais partilham conselhos e dão dicas sobre saúde.

 

Sobre o autor

Mariana Conceição

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