O furioso debate entre feministas radicais, feministas liberais, feministas reaccionárias e anti-feministas conservadoras pode ser simultaneamente confuso e muito divertido de assistir, embora esta observação possa trazer problemas de cancelamento a quem espreita e comenta, por muito se aproximar de um voyeurismo semelhante ao machismo condescendente de ver mulheres à pancada que substituem os sopapos por puxões de cabelo ou ao sexismo da outrora famosa, mas agora abjecta, luta na lama entre mulheres em biquíni.
A primeira observação, de quem não racha lenha por estar fora do ringue, é que as mulheres que falam em nome das mulheres não se entendem sobre aquilo que querem para as mulheres nem sobre aquilo que aceitam que as mulheres possam querer para elas próprias. O exemplo mais recente é o vídeo promocional protagonizado por Sydney Sweeney. Muitas feministas progressistas consideram o vídeo ignóbil porque a dona Sweeney não pode dispor do corpo como bem lhe apetece, aparecendo seminua e sexualizando a imagem do desporto. Divertidamente, são as mesmas feministas que fizeram imensas manifestações sobre outro tópico empunhando cartazes “o meu corpo, a minha escolha”. O corpo delas pertence-lhes, sim, desde que seja para actividades aprovadas pelo comité central do feminismo.
Outro ângulo de debate é a participação política. Depois de perorarem longamente sobre a importância de haver mais mulheres em cargos políticos, quando se lhes pergunta, “como Margaret Thatcher, Angela Merkel ou Georgia Meloni?”, a resposta é habitualmente, “não, dessas não precisamos”. Que a esquerda fique rouca de gritar pela necessidade de haver mais mulheres em cargos de poder e depois perca a voz com outros gritos para afastar as mulheres que os ocupam, confesso, tem uma graça que quase se mistura com vergonha alheira. (Os gritos, aqui, são uma sinédoque da barulheira mediática, não estou a insinuar que as mulheres são histéricas. A esquerda, por outro lado, costuma ser.) Que a esquerda sistematicamente não apresente candidatas aos cargos mais altos do poder, mas a direita sim, é um fenómeno que não lhes passa pela cabeça sequer analisar debater, porque, já se sabe, a esquerda é a favor dos direitos das mulheres e a direita é contra.
Um outro tema que tem dividido os vários feminismos e que de repente se tornou novamente popular é o papel das mulheres na família. As prescrições são variadas. As mulheres devem trabalhar. As mulheres devem ficar em casa. As mulheres nasceram para ser autónomas e independentes. As mulheres nasceram para ter uma família. As mulheres são proletárias. As mulheres são mães. Algumas, poucas, que se atrevem a dizer que as mulheres podem e devem ser aquilo que elas quiserem são imediatamente chamadas à razão pelas outras mulheres, que lhes dizem, a essas libertárias malucas da livre escolha, que não fazem ideia nenhuma do que as mulheres devem podem e têm de querer.
Eu, que aprendi desde cedo em casa – e a lição continua – que as mulheres têm sempre razão, fico mais desordenado nesta guerra conceptual. E mesmo que tivesse algo que se aparentasse com uma opinião firme sobre o assunto, ninguém quereria saber, porque se há coisas que tanto as feministas como as anti-feministas dispensam são as opiniões de mais um gajo sobre as vidas delas.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


