Ponto de Água de Sérgio Costa: A água que temos. A água que poderemos não ter

Escrito por Sérgio Costa

Abre-se hoje o Ponto de Água. Um espaço de informação e de literacia hídrica, escrito todos os meses por quem conhece as redes por dentro: quem trabalha na APAL-SIM. Cabe-me a primeira palavra. Escrevo-a como engenheiro e como gestor.
Portugal fez, nas últimas décadas, um percurso notável. Profissionalizámos a gestão. Levámos água a quase todas as casas. Mas cometemos um erro: acreditámos que a infraestrutura, uma vez enterrada, duraria para sempre.
Não dura.
As condutas envelhecem. As redes perdem água antes de chegar à torneira. O saneamento recebe afluências indevidas – águas da chuva que entram onde não deviam e sobrecarregam o tratamento. E as alterações climáticas deixaram de ser uma previsão. Em 2022, a Barragem do Caldeirão viveu uma situação crítica. Não foi um aviso teórico. Foi um aviso concreto, aqui, na nossa região.
A pergunta mudou. Já não é como levar a água até casa. É como garantir que continua a chegar.
Por isso, reforçar as reservas de água deixou de ser uma opção. É uma condição de sobrevivência. Não basta perder menos; é preciso guardar mais. Mais capacidade de armazenamento. Mais origens alternativas. Mais segurança para secas que já não são exceção. Quem depende de uma só origem depende da sorte. E a água não pode depender da sorte.
Isso exige investimento. Exige conhecimento técnico. Exige renovar o que está enterrado. Exige sistemas que se paguem a si próprios – não por lucro, mas para poderem reinvestir. Uma gestão pública que não seja eficiente arrisca deixar de ser pública.
Exige, sobretudo, escala. Nenhum município, sozinho, responde a desafios que não conhecem fronteiras administrativas. Foi esse o espírito que uniu Celorico da Beira, Guarda, Manteigas e Sabugal na APAL-SIM: partilhar meios, competências e custos que nenhum concelho suportaria isolado.
Mas nenhuma estrutura basta sem uma mudança de atitude. Temos de deixar de gerir apenas a água que temos e começar a gerir, com seriedade, a água que poderemos não ter.
E esse compromisso é de todos. Em cada torneira. Em cada rega. Em cada fuga que se comunica.
O verdadeiro risco não é abrir a torneira e não sair água. É sabermos que isso pode acontecer e agirmos como se fosse impossível.
*Engenheiro e Gestor

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Sérgio Costa

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