Observatório de Ornitorrincos de Nuno Amaral Jerónimo: As novas guerras

Leio as páginas do “Público”, leio as páginas do “Observador”. As guerras e as tragédias em Gaza e na Ucrânia são temas do passado. As pessoas podem sofrer cada vez mais, mas as notícias interessam cada vez menos. A nova grande ofensiva contra os direitos humanos não é em Khan Yunis ou em Kharkiv. É nas escolas e na disciplina de cidadania.
Segundo uma notícia do “Público”, que ocupa duas páginas, as alterações propostas pelo Ministério de Fernando Alexandre vão deixar as crianças em jovens totalmente desprotegidas da sua própria idiotice. De acordo com as letras gordas dessas páginas, nunca mais um adolescente poderá perguntar na escola “Como terminar uma relação abusiva”. Nunca mais. Nem a professores de Português ou Matemática, nem aos amigos com quem fuma charros nos intervalos. Essas perguntas só podiam ser feitas durante as aulas de Cidadania – e nas aulas dedicadas ao módulo que agora foi suprimido.
“S’tôra, o João pegou-me uma grande chapadona na hora de almoço só porque eu disse que o Milhão talvez fosse um bocadinho misógino. Disse-me para nunca mais usar palavras que ele não compreende. Acha que fui muito nefelibata? Ó João, não! S’tôra, bateu-me outra vez, mas a culpa foi minha que usei outra vez uma palavra que ele não conhece.”
“Beatriz, já te disse que hoje estamos a tratar de segurança rodoviária. Se ele não te bateu enquanto conduzia, não me parece adequado que me venhas com essas dúvidas.”
Com a supressão desse capítulo, teme o “Público” e temo eu que a partir do próximo ano as salas de aula das escolas secundárias se tornem uma versão ao vivo dos romances eróticos cheios de relações abusivas que as professoras lêem na cama e vêem na Netflix.
“S’tôra, o Manuel diz que eu tenho de fazer tudo o que ele me pede. Acha bem?”
“Ó Francisca, quem me dera.”
Com as alterações propostas pelo Ministério, misturadas com a incapacidade juvenil de tomar boas decisões e alguma sorte, pode ser que a gravidez adolescente aumente em flecha. Digo sorte, porque talvez seja a única forma de a natalidade aumentar em Portugal, uma vez que depois, em adultas, as mulheres querem ter maridos e carreiras profissionais que não as tratem mal, e sabe-se como hoje em dia ambos são difíceis de encontrar. Embora agora, sem o tal capítulo nas aulas de cidadania, vão ter de aprender tudo novamente na “Maria” e na “Marie Claire”.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

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