O regime de casta

1. Enquanto a mais antiga democracia do mundo nos dá este espetáculo surpreendente e mirabolante que tem sido o processo de saída do Reino Unido da Europa – o “Brexit” – na jovem democracia portuguesa os valores republicanos são metidos na gaveta e o governo é naturalmente arrogado como uma família que governa o país.
Se é natural que haja – e sempre houve – pessoas que se distinguem na vida pública com relações familiares, o que agora temos é um regime tomado de assalto por uma casta socialista onde proliferam as relações de parentesco. Inaceitável. “À mulher de César não basta ser honesta, é preciso parecer” e muito mais do que isso, a governação exige probidade e distanciamento e não pode ser uma mesa de jantar de família.
Se um pai quer sentir o orgulho de ver uma filha chegar a ministra, pois bem, abandona ele o cargo e dá lugar à afirmação da filha; se um secretário de Estado quer os melhores no seu gabinete, e mesmo não tendo dúvidas que a pessoa de mais confiança vive lá em casa, pois tem de separar a “coisa pública” da vida privada, porque além da confiança e da competência, o seu colaborador tem de contribuir para o distanciamento que decidir, governar ou representar o Estado implicam. É a ética republicana a ser diminuída a “coisa nenhuma”… como o insuspeito Vital Moreira reconheceu.
Passados 100 anos sobre o fim da monarquia é estranho que tenhamos de conviver com esta falta de pudor e de sobranceria partidária em que as conexões familiares são a base da escolha de dirigentes e nomeados. E a resposta abstrusa do PS à falta de sentido de estado tem sido sobranceira e inadmissível

2. A contratação para a administração pública de membros da “casta” não tem nada de novo – e tem de ser combatida como princípio. É assim ao mais alto nível, e por isso vai sendo escrutinada pela imprensa e pelos políticos que defendem mais transparência (também os há!), mas está implantada como um cancro na sociedade portuguesa. A “cunha”, o amiguismo, o “empurrãozinho”, fazem parte do dia-a-dia da sociedade portuguesa, e quase nada nos espanta (na Assembleia da República os deputados do PSD tiveram a habilidade de contornar os objetivos e missão de uma comissão da transparência que, nomeadamente, devia acabar com o “patrocínio judiciário” em processos “a favor ou contra o Estado”, introduzindo uma nota subtil, em que o deputado-advogado não pode, mas a sociedade de advogados onde trabalha, pode, desde que o deputado-advogado não intervenha…). É assim nos corredores do poder em Lisboa, como o é, discretamente, por todo o país – que dizer das autarquias locais, das administrações públicas desconcentradas, dos serviços públicos por todo o país, mesmo quando se promovem supostos concursos públicos para uma suposta contratação por mérito o que há é o desenho de concursos à medida do candidato, que é filho, afilhado ou militante do partido. Os “jobs for the boys” estão por todo o lado. Seria bom que não fosse assim, mas se o governo de um país diz orgulhosamente que nomeia os seus por confiança, obviamente que não é possível erradicar este cancro da sociedade – e que ninguém se atreva a comentar ou repudiar tais escolhas (neste jornal tivemos esse atrevimento algumas vezes, por exemplo quando Álvaro Amaro chegou à Câmara da Guarda e contratou uma jovem apoiante ou quando foram contratados muito outros depois, para a autarquia, para o Hospital da Guarda e para outros serviços, o extraordinário, para muitos, não foram essas contratações foi que o jornal o tenha revelado!!!).

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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