Germinal

1. «A União Europeia deve alavancar mais fundos comunitários para estes territórios», disse há dias a este jornal Pedro Marques, cabeça de lista do PS às europeias. Ora, tudo começa com a palavra “alavancar”. É certo que, num bom dicionário, podemos verificar que o termo tanto pode designar um impulso, uma promoção, como o acto de custear, financiar. Ora, perante tal riqueza semântica, qual o sentido pretendido pelo ex vereador do Montijo? Será que encontrou a palavra certa para o seu desiderato? Foi suficientemente impactante? Vejamos. Se quis dizer “custear, angariar”, parece-me que “custear fundos” é algo redundante, roçando o pleonasmo puro e duro. Mas se quis dizer “impulsionar, dirigir”, o enunciado parece algo forçado. Depois de passar horas a pensar no assunto, cheguei a uma conclusão. O candidato quis afinal expressar o seu desejo de “desbloquear” fundos. Uma frase mágica para os socialistas. Ou seja, tudo pode ser financiável com dinheiros públicos. Até o interior. Como se as questões da interioridade se resolvessem com subsidiação comunitária, num passe de mágica. Conclusão. Para ganhar votos, os políticos medianos dizem qualquer coisa. De preferência, que acabe por “tomem lá o cheque”. Sobre a referência à Beira interior como “território” fica o comentário para uma próxima oportunidade.
2. Logo na abertura do “Livro do Desassossego”, Pessoa diz-nos que ver é mais importante do que viver. É possível que sim. Quando li este excerto, sentado na estação do metro da Baixa/Chiado, procurei logo ver algo que sempre vi mas nunca tinha visto. Fixei-me nas pessoas sentadas no banco corrido, do outro lado da estação. Em concreto, as distâncias que guardavam entre si. E havia três situações distintas. A primeira, a mais comum, porque a esmagadora maioria dos passageiros viajam sozinhos, era surpreendentemente igual: cerca de um metro. Um padrão que revela a nossa fundamental igualdade, em certos comportamentos. Por sua vez, havia uma segunda situação. Se duas ou mais pessoas estavam em grupo, a distância que guardavam entre si os seus elementos era reduzida a metade. Ou a um terço, se fosse um casal. Por último, sucedia que, quem se sentava imediatamente ao lado desse grupo ou parelha, tinha o cuidado de guardar uma distância superior. Cerca de metro e meio. Visualmente, para quem assistisse, era fascinante. Tinha ao seu dispor uma linguagem. Um código para decifrar. Pessoa tinha razão.
3. Até há cerca de 20 anos trocavam-se umas estranhas missivas de carácter sentimental, que seguiam por via postal, ou eram entregues em mão. Em casos especiais, eram deixadas em cacifos, ou entregues por terceiros. Antes da extinção, durante um brevíssimo período de agonia, subsistiram como mensagens de correio electrónico. Chamavam-se, por comodidade de expressão, “Cartas de Amor” . Em rigor, pouco mais eram do que sinais de fumo fantasiosos, antes de abordagem ao navio do tesouro. Porém, neste caso, a coberto de uma clandestinidade e de uma premência que os tornava únicos e preciosos. Murmuravam um lirismo arrebatado, patético e honesto. Apertado num espartilho romanesco que, em vez de refrear, acalentava esperanças, fazia tábua rasa da distância, prometia o que já fora mil vezes prometido e parecia que não chegava ainda. Claro que escrevi algumas. Todas ridículas, já se sabe. Talvez demasiado adornadas. Ou demasiado cómicas para serem levadas a sério. Ou, quiçá, demasiado graves para que nelas ainda houvesse uma esperança de comédia. Na verdade, nunca soube muito bem porquê.
4. Nos anúncios a pedir advogados é comum acrescentar dois requisitos: “honesto” e “trabalhador”. No segundo caso, melhor seria se viesse “diligente”. Era mais simpático, atendendo ao facto de esse ser um atributo da maioria dos causídicos. Mas se isso não acontecer, significa que também não é “honesto”. Ou seja, a honestidade é o diapasão onde se apuram todas as qualidades (ou a falta delas) esperadas de um profissional. O seu munus deontológico. Mas a questão não é assim tão simples. Ao contratar um advogado, o cliente como que se esconde numa sala de pânico. Transferindo a sua incerteza, ou a sua euforia, ou a sua reputação, para um substituto qualificado. De quem espera esclarecimento, empenho, transparência, mas sobretudo combatividade e probidade. Duas palavras que nem sempre rimam com honestidade. Até porque os limites desta não são fixos, embora detectáveis. E a imaginação criativa não a põe em causa. Ou seja, as duas características apontadas não colidem necessariamente com a “honestidade”. Onde isso acontece é quando outra é sacrificada: a transparência. Aí, dificilmente a confiança será restaurada.
5. Trazemos connosco uma montra permanente. O que somos é o que mostramos. Poucos querem saber do resto. Visto e sabido. Passo seguinte. Há uma exigência fundamental para nós: saber reverenciar os nossos semelhantes só porque existem. Não têm que pensar como nós, ou ser como nós. Ou fazer como nós. Ou adorar os mesmos deuses. Ou gostar das mesmas palavras. Pois há-de haver um momento em que puxam para si as brisas dos mares distantes. Convocam uma luz qualquer que suspende tudo em volta. Mas não exageremos. Também é importante habituarmo-nos a pregar no deserto. Pregar para uma multidão, que só existe para satisfazer a nossa vaidade, é a ilusão mais cruel de todas. Num deserto, só estás tu e o teu eco. Tu e a tua patética ambição de pulga amestrada. Tu e as tuas “inabaláveis” convicções. Mas é lá que estão os que realmente te escutam. Sabe esperar por eles.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

António Godinho Gil

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