Editorial de Luís Baptista-Martins: A Fernando Paulouro

Fernando Paulouro foi muito mais do que meia-dúzia de palavras. Foi o maior jornalista da Beira Interior

A notícia chegou de chofre. Fiquei sem palavras. Sem reação. Em silêncio. Faleceu Fernando Paulouro. Faleceu um dos melhores de entre nós. Faleceu um grande jornalista e um insigne escritor. Tudo dito em segundos, de forma inesperada, como se uma vida pudesse ser reduzida a meia-dúzia de palavras. Mas Fernando Paulouro foi muito mais do que meia-dúzia de palavras. Foi o maior jornalista da Beira Interior.
Morreu segunda-feira à noite, um dia depois de ter apresentado o seu último livro, “As sombras do combatente”, com «sala cheia, diante dos seus, no Fundão, a sua terra», como salientou Afonso Camões.
Fernando Paulouro dedicou a vida ao “Jornal do Fundão”, de que foi jornalista, chefe de redação e diretor, até que, em 2012, saiu do histórico periódico. Tinha 78 anos, precisamente menos um do que o jornal fundado pelo seu tio, António Paulouro, e deixou-nos de surpresa – presidia à Comissão que irá comemorar os 80 anos do jornal em 2026.
Em “As Sombras do Combatente” escreveu sobre «um homem que fez da liberdade a sua arma e da coragem o seu legado». Podia ser o próprio Fernando Paulouro, um homem da liberdade e cujo legado e memória merece muito mais do que singelas homenagens.
Foi distinguido com o Prémio Gazeta de Mérito, a mais relevante distinção que um jornalista pode receber em Portugal. E recebeu na Guarda o Prémio Eduardo Lourenço.
Fernando Paulouro era um homem culto e sensível como poucos. Viveu intensamente para o Fundão, para a Beira Baixa e para o Interior. Pertenceu à direção do Sindicato dos Jornalistas e ao Conselho Deontológico, animou debates, escreveu prefácios e ensaios e integrou diversas comissões organizadoras de congressos profissionais ou científicos, designadamente a do Congresso dos Jornalistas, a das três edições das Jornadas da Beira Interior, a da Raia Sem Fronteiras e do Fórum “Labirintos da Memória” (sobre a emigração portuguesa).
Tive a enorme satisfação e o grato prazer de o ouvir muitas vezes, em especial quando nos cruzávamos em sessões sobre a censura, o fascismo ou a liberdade de expressão, de que era um verdadeiro arauto, naquele seu tom sempre tão afável e próximo, carregado de um humor refinado. Entrevistei-o em 2013 para o jornal O INTERIOR (https://www.ointerior.pt/arquivo/o-jornalismo-pode-ter-um-contributo-absolutamente-essencial-no-interior-para-a-coesao-social-e-regional/) – entrevista onde resumia a postura dos portugueses perante a liberdade: «Fomos um povo de súbditos sobretudo sem direitos. Ao longo da história os hiatos em que houve liberdade plena são muito pequenos. Porventura é nessa circunstância que reside o diagnóstico que José Gil fez com Portugal e os medos que existem e por isso assistimos hoje na política a uma chantagem permanente».
Ler as suas crónicas e artigos no “Jornal do Fundão” eram momentos sublimes, de indelével beleza e elevação.
Todos aprendemos muito com ele. Todos lhe devemos muito.
Como escreveu Baptista-Bastos, depois de ler “Crónica do País Relativo – Portugal, minha Questão”, «Fernando Paulouro escreve num português de lei e as suas crónicas são exemplos do que de melhor possui a grande prosa portuguesa».
Neste momento de despedida, recordar a enorme admiração com que, enlevados, olhávamos para o Fernando. Ele foi a referência, a nossa referência, no jornalismo, na cidadania, na cultura e na vida pública.
Expresso aqui a minha profunda tristeza e solidariedade a toda a família “Jornal do Fundão”, enquanto apresentamos as sentidas condolências à família e amigos.

Até sempre Fernando Paulouro.

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

Deixe comentário