Editorial de Luís Baptista-Martins: O preço invisível da guerra

Os preços dos combustíveis voltaram a subir, silenciosamente, como um eco distante das bombas que explodem no Médio Oriente. A nova guerra no Irão – mais uma peça no tabuleiro instável da geopolítica – reacende velhas certezas: quando o petróleo arde, o mundo inteiro sente o calor. E, inevitavelmente, a fatura chega à bomba de gasolina e à mesa de cada família.
Vivemos num tempo em que cada conflito é global, mesmo quando o fogo parece distante. Um ataque a um terminal petrolífero no Golfo pode significar, dias depois, mais vinte euros no depósito de um carro em Portugal. A economia tornou-se uma teia tão densa que já ninguém escapa às suas vibrações. E enquanto os governos invocam razões estratégicas, os cidadãos enfrentam contas cada vez mais difíceis de pagar.
Donald Trump, de novo no centro do palco, olha para o conflito com a mesma retórica de sempre – força, segurança, supremacia. Mas raramente se fala de quem paga o custo real desse teatro: os consumidores, os pequenos empresários, os que dependem dos transportes públicos, os que vivem no limite do orçamento familiar. O aumento do combustível é apenas a face visível de uma cadeia de aumento de custos: da produção agrícola ao preço do pão, da eletricidade ao passe mensal.
O mundo habituou-se a viver no paradoxo: exigimos energia barata, mas exigimos também estabilidade, ética e paz. Nada disso é compatível. Cada litro de gasóleo transporta, hoje, uma parte do medo e da incerteza global. A volatilidade económica já não é consequência da guerra – é parte integrante dela.
No fim, o verdadeiro campo de batalha é o quotidiano. É na ida ao supermercado, na decisão de adiar uma viagem ou comprar um equipamento, no cálculo mental de quanto resta até ao fim do mês. É aí que a geopolítica se revela, não nos discursos nem nas cimeiras, mas nos gestos de quem trabalha, de quem paga impostos, de quem tenta apenas viver com dignidade.
A guerra no Irão pode parecer distante, mas o seu reflexo está no espelho da economia doméstica. Não há neutralidade possível quando a paz do mundo se mede em cêntimos por litro.
O imperialismo americano é aterrador. Trump acaba de anunciar que pode “tomar” Cuba a qualquer momento. O velho reduto comunista está falido e o povo cubano vive miseravelmente. Os Estados Unidos ameaçam anexar a ilha – o 51º estado! Tempos surpreendentes os que vivemos.

 

PS: Historicamente, o gasóleo foi sempre mais barato do que a gasolina e associado ao transporte de mercadorias e passageiros, ao consumo comercial e empresarial, mas, neste momento, o aumento do preço tem sido acentuado essencialmente no gasóleo, e pela primeira vez o diesel é mais caro do que a gasolina – com o gasóleo a dois euros por litro não há economia que resista.

Durante os últimos anos habituámo-nos a ir abastecer à fronteira, porque em Espanha o combustível era mais barato. Com a invasão do Irão, os preços dispararam por todo o lado e em Espanha o aumento foi ainda mais vertiginoso: enquanto em Portugal o preço médio do litro é agora de €1,91, em Espanha custa €1,89 (dependendo da província e do abastecedor), sendo possível abastecer mais barato em Portugal do que no país vizinho, o que não ocorria há muitos anos.

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Luís Baptista-Martins

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