Não sei muito de peixes, mas há os intensos e os mais amáveis de sabor. O peixe tem a característica de deixar a sua marca na pele, agarrando-nos um cheiro forte. Aliás, o marisco também e os moluscos do mar igualmente. Deve ser coisa que caracteriza a água salgada. Uma peixeira perde essa sensação pela exposição que dessensibiliza. A maioria das que me lembro referia o banho diário para afastar os odores. Compravam sabonetes e shampoos intensos.
O peixe grelhado é uma iguaria, tal como o peixe cru servido pelos japoneses. Come-se habitualmente com verduras, também cozinhadas, como grelos, feijão-verde ou esparregado. A batata cozida é o requinte que acompanha o peixe. No sushi as coisas ficam diferentes. Prefiro a ruralidade das nossas panelas e dos nossos grelhados. O azeite acompanha todo aquele preparado, regando, não afogando, os sabores que chegam da comida confecionada. O ovo cozido acompanha bem estes grelhados. Como com as pessoas, prefiro poucas espinhas. A melhor companhia é a que não abre o telefone, não come sem arrefecer a comida, não passa as garfadas seguidas sem resposta. O peixe grelhado é uma dádiva dos céus e obviamente que o meu paladar tem dificuldade em distinguir os descongelados e os frescos. Hoje, esse processo está tão desenvolvido que há um milagre na perceção. Como na política, as perceções constroem as acusações. As pessoas acompanham bem o peixe, se forem de qualidade, frescas de ideias, interessantes de conversa, tiverem tempo para degustar e falar de experiências e sensações.


