Apagão geral

Uma sobrecarga na rede elétrica em Espanha levou a que a Península Ibérica ficasse às escuras. Um apagão imprevisto, inaudito, surpreendente, inaceitável! Um apagão! E um apagão que foi muito mais do que um corte de energia elétrica.
Foi um apagão de um país! De dois países! De um mercado ibérico de eletricidade, onde as quebras não deviam acontecer e «onde passou a ser mais vantajoso importar energia espanhola do que produzirmos nós», como referiu o antigo ministro Mira Amaral, ao “Expresso”, que acrescentou que «temos os nossos geradores parados porque é mais económico importarmos energia elétrica de Espanha do que produzir nas nossas centrais e ter custos variáveis» – mas mais vantajosos para quem? Mira Amaral referia-se, nomeadamente, ao encerramento das centrais termoelétricas (a carvão) de Sines e do Pego em 2021 e que deixaram o país dependente das importações de Espanha (e de França). Este esforço, então aclamado como um sucesso, fez parte da estratégia de alinhar o país com o Pacto Ecológico Europeu e o Acordo de Paris. Mas na última segunda-feira foram os que criticaram essa estratégia energética, os que sempre disseram que era prematuro o encerramento das centrais, que falaram mais alto e recordaram o que há muito repetiam: o sistema energético português é frágil e dependente. Segunda-feira colapsou em Espanha e Portugal ficou às escuras.
Os últimos governos decidiram incentivos milionários no investimento em centrais de energia renovável, designadamente eólicas e solares, que os consumidores suportam nas suas faturas de eletricidade. O problema é que o sistema precisa, sobretudo às horas de ponta, de fontes de energia firme, como as centrais termoelétricas, movidas a energia nuclear, gás natural ou combustíveis fósseis.
Segunda-feira o país parou. O governo foi lento a reagir (o primeiro-ministro descartou responsabilidades dizendo que a culpa era dos espanhóis), a proteção civil não funcionou e os portugueses ficaram entregues a si mesmo.
Na Guarda, a luz regressou pouco depois das seis da tarde, mas houve locais na região, como Figueira de Castelo Rodrigo, Manteigas, Covilhã ou Fundão em que só algumas horas depois o fornecimento foi reposto. Entretanto, alguns serviços essenciais responderam esforçadamente evitando situações de caos, em especial as Câmaras Municipais da região e o hospital da Guarda.
Num país que privatizou a rede elétrica e a comercialização da eletricidade, e que tem uma das eletricidades mais caras da Europa, um apagão é uma tragédia. Mas o pior: afinal somos um país que vendemos a soberania energética por um punhado de lentilhas!
Se é relevante sabermos como chegámos aqui, mais importante é encontrarmos o caminho para que isto não volte a acontecer – tudo é política, e foram os políticos que nos trouxeram até aqui (as opções dos governos), por isso temos que exigir responsabilidades e soluções aos políticos. Que este apagão sirva para recuperar o debate sobre a energia, interrogarmos se é aceitável esta dependência de Espanha e se a política energética não deve ser toda repensada. Portugal pode ter capacidade para ser autónomo, mas terça-feira não foi, ficou às escuras. E isso é inaceitável.

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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