Há propostas políticas que parecem óbvias à primeira vista. “Escola a Tempo Inteiro” é uma delas. Quem pode ser contra a uma escola que acolhe, protege e ocupa as crianças durante todo o dia? Quem ousa levantar dúvidas perante uma medida que, à superfície, resolve a vida das famílias?
Mas é precisamente aqui no conforto do “parece bem” que mora o perigo.
Na última Assembleia Municipal da Guarda, voltou a ganhar força a ideia da escola a tempo inteiro como resposta moderna e necessária. A proposta surge com boas intenções e isso importa reconhecer. Mas há uma pergunta que não pode ficar de fora. Isto serve verdadeiramente as crianças e jovens?
A evidência internacional aconselha, pelo menos, muita prudência. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) tem vindo a alertar que o aumento do tempo em contexto escolar não se traduz automaticamente em melhores resultados nem em maior bem-estar. Mais horas não significam mais qualidade muitas vezes significam apenas mais cansaço. A UNICEF vai mais longe e sublinha a importância do brincar livre como um direito fundamental da criança. Não como um extra, mas como base do desenvolvimento emocional e social. No campo da psicologia, os avisos são claros. Peter Gray tem demonstrado a relação entre a redução do tempo livre e o aumento de ansiedade e depressão nas crianças. Muito antes, Jean Piaget já defendia que a aprendizagem verdadeira nasce da exploração autónoma, algo que não cabe num dia totalmente programado. Até a American Academy of Pediatrics reforça: brincar não é perda de tempo, é construção de competências essenciais à vida.
Perante isto, insistir num modelo que prolonga o tempo institucional da criança exige cautela. Mas o debate, muitas vezes, parece correr mais depressa do que a reflexão. E aqui a questão deixa de ser abstrata e passa a ser local.
Na Guarda, não partimos do zero. Existem associações, coletividades e diversas atividades que já garantem o acesso universal, muitas delas a custo zero, promovendo igualdade, sem retirar às crianças o direito a viver fora de uma única instituição. Há comunidade. Há rede. Há alternativas. Então porquê esta insistência em concentrar tudo na escola?
A resposta pode ser incómoda, porque organizámos a sociedade em função do tempo dos adultos. O trabalho exige. A logística impõe-se. Lentamente o tempo das crianças vai sendo ajustado ao ritmo dos crescidos. É aqui que surge um desconforto maior. Essa ideia de “melhor organização”, de controlo total do tempo, de ocupação permanente, começa a lembrar, ainda que de forma distante, o mundo descrito em “1984”, de George Orwell. Não porque vivemos numa distopia, mas porque a lógica de fundo se aproxima perigosamente; tudo estruturado, tudo previsto, tudo enquadrado. E quando tudo está organizado… o que sobra da liberdade? O que sobra do tempo para ser criança? A infância precisa de liberdade. Precisa de tardes sem agenda. De ruas com brincadeiras improvisadas. De avós com tempo. De pais sem pressa. De silêncios. De tédio até, porque é muitas vezes no tédio que nasce a criatividade.
Ao institucionalizar toda a infância, corremos o risco de formar gerações sem tempo para construir memórias reais. Sem tardes com os avós. Sem conversas demoradas com os pais. Sem brincadeiras de rua com primos e vizinhos. Sem histórias. Uma infância sem histórias não é apenas mais pobre, é mais frágil.
Este não é um debate contra a escola. Nem contra quem trabalha para melhorar as respostas sociais. É um debate sobre equilíbrio. Sobre limites. Sobre aquilo que não deve ser ocupado.
A “Escola a Tempo Inteiro” pode resolver um problema logístico. Mas não pode, nem deve, substituir o tempo de vida. Porque uma infância não se mede pela agenda preenchida, mede-se pelas memórias construídas. E essas… não cabem num horário.


