Opinião de Diana Santos: Eles não sabem nem sonham

Escrito por Diana Santos

Na última Assembleia Municipal, o Partido Socialista apresentou uma moção com o propósito de devolver ao Teatro Municipal da Guarda a centralidade, a ambição e a dignidade que a sua existência pressupõe, apostando-se na sua programação e recursos humanos. A moção foi votada favoravelmente por todos os deputados do PS, PSD, IL, CDS e CH (31 votos a favor) e rejeitada por toda a bancada do PG – Pela Guarda (51 votos contra).
Num território que não possui maior escala urbana, não tem maior centralidade económica nem vantagens climáticas, o Teatro surge como uma exceção. Uma infraestrutura de excelência, com potencial real de projeção nacional. O TMG não é apenas um equipamento cultural; é, muito provavelmente, a única política pública de grande dimensão onde a Guarda pode destacar-se de forma clara. É a nossa vantagem competitiva.
Perante isto, esperava-se, pelo menos, alguma reflexão e discussão produtiva em torno desta moção. Contudo, o que se verificou foi uma resposta política em forma de ataque a quem exige mais, não vá a exigência – e é este o medo de quem não investe em cultura – exigir melhores políticos.
Classificar a exigência de qualidade e ambição cultural como «elitista» ou «afastada da realidade guardense», tal como o atual presidente de Câmara o fez, é revelador de uma visão turva e limitada sobre o alcance cultural, mas é, primeiramente, um erro de princípio. Parte da ideia de que a cultura de qualidade pertence a poucos, de que a exigência é sinónimo de exclusão, de que elevar o nível é afastar as pessoas.
Nada mais errado.
A verdadeira desigualdade não está no acesso à cultura exigente, está na ausência dela.
Quando se baixa a fasquia, quando se reduz a programação ao preenchimento de calendário e ao indiferenciado, limita-se a formação de pensamento crítico, de sensibilidade estética, de participação informada. Defender qualidade não é elitismo; é, precisamente, o contrário: é recusar que a cidade se contente com pouco.
Encher uma sala não é, por si só, um critério de sucesso cultural, como nos tentam fazer crer. Um teatro pode encher-se de pessoas e, ainda assim, permanecer vazio de sentido. Pode cumprir a função de acolher, sem cumprir a missão de transformar. A cultura não existe para ocupar lugares. Existe para ocupar consciências.
A cultura não é um luxo urbano. É um instrumento de transformação e, em contextos como o da Guarda, pode ser até mais do que isso: pode ser estratégia central.
O Teatro Municipal é uma possibilidade. Um ponto de partida para pensar a cidade de outra forma, mais aberta, mais exigente, mais afirmativa. Um espaço onde se pode construir identidade e projetar o território.
Não basta ter um teatro, é preciso fazê-lo existir e fazê-lo existir implica risco, critério, continuidade e criatividade. Um Teatro não se mede pela afluência, mas sim pela densidade do que propõe, pela capacidade de inquietar, de confrontar, de abrir novas possibilidades de leitura do mundo. Pela exigência que coloca a quem entra e – sobretudo – pela transformação que provoca em quem sai.
A rejeição desta moção evidencia a dificuldade persistente desta gestão autárquica em reconhecer o valor estratégico da cultura e, enquanto essa dificuldade permanecer, o Teatro Municipal continuará a ser menos do que pode ser.
A Guarda continuará a adiar aquilo que, paradoxalmente, já tem.
Desinvestir em cultura é desinvestir na formação dos indivíduos e da sociedade.
A cultura, quando é levada a sério, não deixa tudo na mesma e é isso que, no fundo, esta discussão revela. Não se trata de uma mera divergência sobre programação, mas de uma diferença profunda sobre o que se entende por cultura e sobre o que se deseja para a cidade. Entre encher salas e formar pessoas, a escolha deveria ser evidente, mas, infelizmente, não foi. Só podemos lamentar.

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Diana Santos

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