A segurança rodoviária moderna exige, hoje, muito mais do que a tradicional fiscalização de estrada. Exige ciência, investigação e, acima de tudo, pedagogia. Ao observar a vizinha Salamanca, encontra-se o roteiro a seguir: o Centro Superior de Educación Vial. Esta instituição elevou-se a referência europeia ao tratar o erro humano como uma área de investigação de elite, utilizando simuladores de última geração para prevenir a tragédia antes que ela aconteça.
A discrepância entre os dois países ibéricos é gritante e deve inquietar a sociedade. Em 2025, enquanto Espanha consolidou uma tendência de descida com 36 mortes por milhão de habitantes, Portugal estagnou num patamar preocupante de 58 por milhão. Este “fosso” estatístico reflete a aplicação rigorosa do conceito de “Sistema Seguro”: o erro humano pode ser inevitável, mas a morte na estrada não o deve ser.
A urgência de uma mudança de paradigma é reforçada pela frieza dos dados recentes: entre 1 de janeiro e 9 de abril de 2026, as estradas portuguesas já vitimaram 137 pessoas – um aumento alarmante de 36% face ao período homólogo. Portugal enfrenta uma verdadeira crise de saúde pública que consome anualmente entre 2 a 3% do seu Produto Interno Bruto (PIB).
Perante este cenário, as políticas públicas do atual Governo (XXIV constitucional) assumem uma postura de maior rigor. O Ministério da Administração Interna (MAI) anunciou recentemente um pacote de medidas implacáveis, que inclui o agravamento de sanções para infrações graves, a reativação da Brigada de Trânsito da GNR e a aprovação definitiva da Estratégia Visão Zero 2030, com um investimento previsto de 224 milhões de euros até ao final da década.
É neste contexto que a cidade da Guarda deve reclamar o seu papel. Situada no cruzamento nevrálgico da A23 com a A25, a cidade reúne condições únicas para acolher o Centro Nacional de Segurança Rodoviária. Este projeto daria, finalmente, corpo à promessa do ex-ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, de converter a cidade num centro nevrálgico para a formação rodoviária.
Mais do que uma infraestrutura, este “Hub” seria o motor necessário para unir as “forças vivas” da região: o Instituto Politécnico da Guarda (IPG), focado no braço tecnológico (logística e simuladores), e a Universidade da Beira Interior (UBI), na investigação comportamental e engenharia.
A Guarda tem de atrair a sua fatia do investimento público para equilibrar a punição com a prevenção e a ciência. Existe a localização, existe o exemplo de Salamanca e existe a necessidade. É hora de converter a centralidade geográfica da região num polo de ciência e formação.
* Coronel GNR, mestre em Ciência Política e Especialista em Estudos de Segurança Interna e Fenómenos Criminais


