1. O 25 de Abril e o 1.º de Maio são dois momentos que definem a identidade democrática portuguesa. Um é sinónimo de liberdade; o outro, de justiça social e dignidade no trabalho. Este ano, essas datas ganham um novo significado à luz das palavras e ações do Presidente António José Seguro, que se tem colocado no centro do debate sobre a legislação laboral com uma postura de diálogo e moderação.
O espírito de Abril nasce da rutura com o autoritarismo, mas também da aposta na conciliação. Foi esse o legado dos Capitães de Abril – não só devolver a voz ao povo, mas construir pontes. O 1.º de Maio, por sua vez, recorda-nos que a liberdade política só é plena quando há liberdade económica e social, quando o trabalho digno é respeitado. É justamente nesse cruzamento que António José Seguro parece querer situar a sua Presidência: entre a liberdade conquistada e a justiça a consolidar.
Ao longo das últimas semanas, Seguro tem insistido «até ao fim» no diálogo sobre a revisão da legislação laboral, sublinhando que o papel do Presidente não é impor resultados, mas criar entendimento – «fazer pontes», como afirmou. A coerência que apresentou na campanha presidencial – prometendo não promulgar alterações laborais sem o acordo de pelo menos uma central sindical – mantém-se agora numa leitura institucional mais equilibrada, onde escutar todos é o primeiro dever republicano.
Se o 25 de Abril nos deu a liberdade, o 1.º de Maio recorda-nos a responsabilidade de agir por um bem comum. Num tempo de ruído político e cansaço social, talvez essa seja mesmo a forma mais verdadeira de honrar Abril – e de fazer do Maio que vem um espaço de esperança concreta, não apenas de memória ((evidentemente que, antes do Dia do Trabalhador a UGT não poderia aceitar qualquer acordo sobre a nova legislação laboral, mas, provavelmente, vai anuir em algumas alterações depois do dia 1 de Maio).
2. Há homenagens que valem mais do que a cerimónia – e a cerimónia, com a presença de toda a família Balsemão, foi um grande momento de louvor e aplauso coletivo da cidade. A Guarda, ao dedicar o 25 de Abril à memória de Francisco Pinto Balsemão, fê-lo com essa clareza: não apenas para recordar um nome ilustre e uma personalidade ímpar originária da cidade, mas para sublinhar o reconhecimento pelo serviço público e relevância política a esse excelso defensor da democracia, da liberdade, do pluralismo e da liberdade de expressão.
Francisco Pinto Balsemão foi mais do que fundador do “Expresso”, primeiro-ministro ou empresário de sucesso. Foi, sobretudo, um homem de convicções democráticas firmes.
Num tempo em que a política tantas vezes se confunde com espetáculo, recordar Balsemão é recordar que o essencial é a substância, não o ruído. Foi um dos rostos do Portugal que se reinventou após o 25 de Abril, e um dos que souberam transformar a liberdade em projeto, e não apenas em palavra.
A cidade da Guarda, ao entrelaçar o nome de Balsemão com a memória de Abril, recorda-nos que a democracia não vive só de revoluções, mas também de convicções. Ele foi, em muitos sentidos, o espelho de um país que aprendeu a ser livre sem perder a sobriedade – e essa é, talvez, a melhor forma de o homenagear.
Editorial de Luís Baptista-Martins: A Voz do Diálogo
“Se o 25 de Abril nos deu a liberdade, o 1.º de Maio recorda-nos a responsabilidade de agir por um bem comum”


