Vejo um meme viral, uma espécie de contos de fadas do mundo digital contemporâneo, sobre o partido Chega: “O Chega é como a “Casa dos Segredos”, todas as semanas um é expulso”.
Rio-me, porque sou adepto de comparações, metáforas, metonímias envolvendo dimensões que habitualmente não se misturam, mas percebo que é insuficiente. Escrito de outra forma, esta comparação não chega.
O Chega é como a “Casa dos Segredos” porque quem os apresenta tem talento suficiente para manipular a audiência entre comoções populistas e dichotes moralistas.
O Chega é uma “Casa dos Segredos” cheia de pessoas com imensa vontade de serem conhecidas, mas cujo pensamento muito improvavelmente será objecto de um ensaio no “Jornal de Letras”.
O Chega e a “Casa dos Segredos” têm conhecimentos de História e Sociologia muito – para usar mais uma figura de estilo – peculiares.
Escrevi, parágrafos atrás, que gosto de figuras de estilo que envolvem dimensões diferentes da vida. Percebo agora, depois de ter experimentado as três referidas, que a política e os “reality shows” estão cada vez mais parecidos, retirando a essas figuras de estilo o pretendido efeito de facécia.
Experimento, por isso, a minha figura de estilo preferida, a hipálage. Sei que é pouco conhecida e ainda menos usada, mas eu também sou pouco de frequentar sítios com multidões.
Debaixo dos demagógicos holofotes, entre decotes populistas e discursos reveladores, os participantes do Chega e os militantes da “Casa dos Segredos” aguardam por ansiosos votos. Disfarçando a nervosa maquilhagem de palhaço, o circo continua conduzido por uma voz com democrática aparência perante um país que assiste, balde de pipocas manipuladas numa mão e comando de TV atónito na outra.
Julgará agora o leitor sobre a qualidade estilística deste texto. Se não apreciar, culpará por certo o pouco talentoso teclado que o escreveu.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia



