O Governo português vive numa bolha cada vez mais distante da realidade do distrito da Guarda. Entre incêndios rurais e tempestades extremas, concelhos como Trancoso e Fornos de Algodres continuam reféns de promessas que não chegam ao terreno, de prazos anunciados, mas não cumpridos, e de decisões políticas que agravam, em vez de mitigar, as consequências das crises climáticas.
Os incêndios de 2025 foram dos mais devastadores das últimas décadas. Tratou-se do quarto pior ano desde 2001, com cerca de 271 mil hectares ardidos. No distrito da Guarda, o verão deixou um rasto profundo de destruição no mundo rural, infelizmente também com perda de vidas.
Meses depois, os números continuam a ser inaceitáveis. Em Trancoso, apenas 44,8% das candidaturas nacionais de apoio estavam pagas, o que corresponde a pouco mais de 1,4 milhões de euros, quando estavam em causa quase 9 milhões submetidos.
Na região Centro, incluindo o distrito da Guarda, os dados divulgados no início de 2026 revelavam que menos de metade das candidaturas apresentadas tinham sido analisadas, apesar de existirem diplomas legais que previam apoios excecionais e procedimentos simplificados, com base em vistorias conjuntas. Mais de metade dos processos permanecia por avaliar. Para quem vive da terra, para quem perdeu colheitas, apiários ou áreas florestais, esta lentidão não é um detalhe administrativo. É a diferença entre resistir ou abandonar.
A CCDR Centro justifica os atrasos com a realidade do minifúndio, a necessidade de visitas a todas as parcelas, a articulação técnica exigida e ainda o inverno rigoroso e a meteorologia adversa. Estes argumentos contrastam com as garantias públicas de rapidez dadas pelo Governo. Enquanto isso, apicultores, produtores florestais e outras atividades essenciais à economia rural da Guarda continuam à espera, acumulando prejuízos e incerteza.
Como se isto não bastasse, em janeiro de 2026 a tempestade Kristin atingiu com particular violência o concelho de Fornos de Algodres. Os prejuízos materiais rondaram os três milhões de euros e afetaram equipamentos públicos fundamentais, como os Paços do Concelho, a Biblioteca Municipal, o Centro Escolar, o Jardim de Infância, o Pavilhão, o Estádio, a Residência de Estudantes, a Central de Camionagem, o Centro Interpretativo, a Praia Fluvial da Ponte de Juncais e o Fontanário de Figueiró da Granja.
Perante esta dimensão de danos exigia-se uma resposta política clara e solidária. O PS propôs a inclusão de Fornos de Algodres na Resolução nº 17-A/2026, garantindo o acesso aos apoios necessários. A proposta foi reprovada na Comissão de Ambiente e Energia, mas acabou aprovada em plenário da Assembleia da República. Registe-se, no entanto, que o PSD votou contra. Se dependesse do partido do Governo, a exclusão injusta seria mantida.
Este padrão de atraso, recusa e desresponsabilização tem consequências nefastas. Cada mês perdido e cada apoio que não chega empurra mais pessoas para fora do território. O despovoamento do distrito da Guarda não é uma abstração estatística. É o resultado acumulado de políticas que falham quando as populações mais precisam.
O Partido Socialista continuará a exigir respostas, prazos cumpridos e uma verdadeira discriminação positiva para o interior. Enfrentar as alterações climáticas não pode limitar-se a discursos sobre transição ecológica. Tem de significar presença no terreno e apoio efetivo às populações da Guarda quando o fogo trágico e as tempestades extremas lhes batem à porta.
* Deputada do PS na Assembleia da República eleita pelo círculo da Guarda e coordenadora da Comissão Permanente de Educação e Ciência


