Opinião de Diana Santos: O apagão também fica no recato

Escrito por Diana Rodrigues

As buscas da Polícia Judiciária a organismos públicos têm, ao longo dos tempos, suscitado casos caricatos. Os guardenses ainda têm presente o caso dos documentos triturados em 2019, sob o comando do edil Álvaro Amaro. Perigoso vírus este que tem que ser erradicado para não se propagar, não vá a humanidade – a tal – padecer.
Mudam-se os tempos e as vontades mantêm-se, não fosse o homem ser fraco perante tentações de soberba. Mudam-se os tempos, mudam-se as técnicas, não estivéssemos nós em plena sociedade digital e assustadora e artificialmente inteligente.
Há quem acredite em mercúrio retrógrado, há quem acredite em feitiços, há quem acredite no terraplanismo. Coincidência, eclipse total em dia especial, profecia milenar, o certo é que desde que se soube das buscas da PJ à Câmara da Guarda que o sistema informático do município não funciona. O denominado «incidente cibernético complexo» foi, como nos dizem as variadas notícias, um «ataque informático [que] ocorreu no mesmo dia em que a PJ efetuava buscas na autarquia para recolher elementos de provas, no âmbito de um inquérito instaurado por participação económica em negócio e prevaricação de titular de cargo político.» (Agência Lusa, 20 fev.).
Quase duas semanas depois, os munícipes ainda não foram devidamente esclarecidos sobre o que aconteceu e as suas implicações. Não sabemos se temos os nossos dados comprometidos, não sabemos se os processos urbanísticos estão íntegros, se as bases de dados da ação social foram preservadas, se os contratos e procedimentos em curso sofreram qualquer adulteração. Não sabemos, sequer, qual é o plano de contingência que foi acionado, que auditorias externas estão a ser realizadas, que responsabilidades políticas e técnicas serão apuradas. Sabemos apenas que «vários serviços» continuam bloqueados e que o silêncio institucional se vai adensando e que tudo continua no recato que Sérgio Costa tanto gosta. A falta de transparência e de agilidade, também em casos graves, fica evidente.
A coincidência temporal entre as buscas da Polícia Judiciária e o colapso informático pode ser apenas isso, coincidência, mas a política não pode viver de factos isolados; tem que ser sustentada por esclarecimentos, por confiança e por credibilidade. Quando duas ocorrências graves se sobrepõem no mesmo dia – diligências judiciais por suspeitas de participação económica em negócio e prevaricação e um ataque que paralisa serviços municipais –, o mínimo exigível é transparência absoluta.
Não se trata de explorar teorias da conspiração nem de insinuar relações que competem às autoridades investigar. Trata-se de exigir maturidade democrática. Se houve falha de segurança, esta tem de ser explicada: como ocorreu, que vulnerabilidades foram exploradas, que dados foram potencialmente exfiltrados, que medidas corretivas já estão implementadas. Se houve negligência, deve ser assumida. Se houve crime, que seja apurado e punido. A pior resposta é a infantilização do cidadão, tratado como destinatário passivo de comunicados vagos e eufemísticos.
A Guarda não pode permitir que a sua imagem pública seja a de uma cidade vulnerável, seja a vírus informáticos, seja a vírus éticos.
Este episódio deveria ser um ponto de inflexão, não só para reforçar “firewalls” e servidores, mas para reforçar princípios. Governar é prestar contas. Governar é antecipar riscos. Governar é compreender que os dados dos munícipes são património sensível e que a confiança é o ativo mais valioso de uma comunidade.
Se a transição digital é inevitável, então que seja feita com rigor e compromisso. Porque, no final de contas, mais do que saber que houve um ataque informático, os guardenses querem saber se a sua Câmara está à altura de os defender e de se explicar. Nesta terra que tantas vezes se sente esquecida e apagada, o que não pode falhar – nunca(!) – é a integridade de quem a governa e a confiança de quem nela vive.

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Diana Rodrigues

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