Até há pouco mais de cem anos, os transportes na região da Guarda pouco ou nada tinham evoluído desde os tempos da fundação da nacionalidade.
Morosos e lentos, eram, à semelhança do que se passava no resto do país, poucos, desconfortáveis e muito caros. Estradas, verdadeiramente ditas, não havia, para além da Estrada Real nº 55, em “macdam”, complementada por uma rede de caminhos que ligava as aldeias entre si e com a cidade.
De resto, todos andavam a pé e muitas vezes descalços, por caminhos empoeirados no Verão e enlameados no Inverno, fazendo curtos trajetos, e que, por isso mesmo, levava a que quem nascesse numa terra, por ali casava e morria, apenas sabendo do que se passava no resto do país quando se deslocava a alguma feira ou mercado, ou algum almocreve por ali passava, oferecendo “necessidades” e levando novidades, atrasadas e distorcidas, como as sardinhas que transportava, e que, apesar de mal cheirosas, ele garantia terem sido acabadinhas de pescar há cinco ou seis dias na Figueira da Foz ou Aveiro.
É certo que já havia a diligência que fazia serviço para Lamego, Viseu, Covilhã e Castelo Branco, mas era tão incómoda e cara que ficava inacessível ao povo, que se limitava a olhar para ela num misto de curiosidade e alguma bisbilhotice, mas que não deixava de constituir já um sinal e fator de progresso e ligação ao exterior.
A Guarda e o comboio

Sede na rua Marquês de Pombal
Contudo, o grande salto qualitativo, em termos de acessibilidades, será dado, de uma forma indiscutível, com a construção do caminho-de-ferro. A partir daí, a Guarda e todas estas terras deixam de estar tão isoladas, já não é necessário fazer testamento antes de encetar uma viagem a Lisboa, os industriais já podem mandar vir maquinaria pesada para as suas fábricas, os lavradores já podem escoar os seus produtos, nomeadamente a batata, para os grandes centros de consumo, e todos eles já podem saborear uma sardinha fresca, mesmo que repartida por dois ou três.
Mas, a chegada do comboio à Guarda trouxe uma nova necessidade. É que, como a cidade se encontra situada num local alto e quase íngreme, inviabilizou tecnicamente o seu trajeto pela Guarda.
A alternativa encontrada foi um lugar, até ali quase ermo, com algumas quintas, logo a seguir ao Rio Diz e à Póvoa do Mileu, por onde, bem próximo, ficavam as ligações às bandas de Pinhel, Almeida, Sabugal e Espanha.
Ora, se era habitual para os residentes desses lugares deslocarem-se a pé ou numa cavalgadura até à cidade, não o era para quem chegava no comboio, com roupas inapropriadas e carregados de coisas inimagináveis.
Depois, havia, também, o correio, que, com a chegada do comboio, passou a ser feito com maior rapidez, regularidade e confiança, mas para isso tinha que ser transportado até à cidade.
Ou seja, desta combinação de fatores era mais que evidente que fazia falta que, de uma forma organizada e regular, houvesse quem transportasse o correio, os passageiros e seus bens, e as mercadorias para a Guarda.
E porque o negócio prometia ser lucrativo, foram várias as empresas que se constituíram expressamente com o objetivo de explorar publicamente esses serviços entre a Estação e a cidade.
Assim, e só para citar algumas, nasceram a Companhia de Viação e a Nova Companhia de Viação.
Os anos foram passando, mas porque o negócio talvez não fosse assim tão chorudo, pois muitas das pessoas, nomeadamente estudantes, continuavam a vir a pé, ou também porque não estivessem bem organizadas, essas empresas foram ficando pelo caminho.
Entretanto, a Estação da Guarda é que não parava de se desenvolver e rapidamente, de lugar insignificante e ermo, passou a ter uns abarracamentos de madeira, depois algumas casas, melhores, mas ainda de madeira.
A primeira casa de pedra foi de José Ferreira, comerciante de produtos agrícolas, e a segunda de António Pinheiro.
António Pinheiro
António Pinheiro nasceu em Rocamonde, concelho da Guarda, em 31 de julho de 1876.
Com 18 anos feitos resolveu deixar a oficina de alfaiate do pai e o aconchego da família e seguir nova vida. Vem para a Guarda e emprega-se como guarda-livros na casa de António Ferreira. Ali, em contacto com um mundo novo, rapidamente se apercebeu que era indispensável um transporte condigno e adequado das pessoas e bens para a cidade, e também no sentido inverso.
Com esse objetivo, decide abandonar o emprego e criar a sua própria empresa de transportes.
Faz um contrato com a Linha do Caminho de Ferro da Beira Alta e, com uma carroça puxada por mulas, lá vai levando e trazendo o correio e os passageiros que aparecessem.
A primeira camioneta
Pouco depois, ou porque o negócio lhe sorria, ou ainda pelas muitas reclamações que aquele tipo de transporte motivava, resolveu-se a comprar uma camioneta para fazer a “carreira” para a Guarda.
Assim, em 1920, ignorante dos procedimentos necessários, mas determinado, vai de abalada até Lisboa proceder à sua aquisição.

Uma camioneta de entregas
Negócio feito, e de regresso à Guarda, assiste orgulhoso ao sucesso e curiosidade que a camioneta despertava por todos os sítios por onde passava.
Já com a concessão dos transportes entre a cidade e a estação, e na eminência do sucesso, propõem-lhe a constituição de uma empresa maior. Ciente das vantagens que poderia obter, concorda e é assim que, em 11 de outubro de 1920, é constituída a Sociedade de Transportes, Lda.
A Sociedade de Transportes Lda.
No entanto, só passados dois anos, em 27 de fevereiro, com a admissão de mais oito sócios, passando a ser 12 no total, é que a empresa vai efetivamente arrancar, com um capital de 130 contos.
Entretanto, a filha de António, Maria dos Anjos, casa com Manuel Carlos Godinho, um homem empreendedor e já com alguma experiência do sector de transportes. Dinamiza a empresa, da qual virá a ser o principal acionista, visto que a sua esposa era filha única.
A sede da empresa ficou na Rua Marquês de Pombal, entre a “Mobiladora” do Sr. Freitas e a célebre casa do “João do Grão”, numa reentrância que a rua então tinha.
Mudança de instalações
Em 1949, havendo necessidade de corrigir o traçado dessa rua, bem como da Alves Roçadas e do espaço envolvente da Igreja da Misericórdia, o prédio foi deitado abaixo.
Foi reconstruído, mais recuado, sob projeto do arquiteto António Patrício Portugal, e nele se instalou, em 1953, sem estar ainda completamente acabado, a Sociedade de Transportes.
Na altura, para além de “Serviço combinado com os Caminhos de Ferro” e de servir de “Despacho Central da Guarda”, tinha camionetas de aluguer para passeios e excursões, “camions” para transporte de mercadorias.
Depois, foi um nunca mais parar de crescer: mais empregados e mais viaturas para fazer face ao movimento e a solicitações sempre maiores.

Antiga camioneta de distribuição
E porque o número de viaturas da empresa já era significativo e precisavam muitas vezes de reparações, e como o parque automóvel da região, nomeadamente camionetas, também estivesse em franca expansão, foi tomada uma decisão de grande impacto na vida da empresa e da própria cidade: criar uma unidade fabril onde as viaturas, próprias ou não, fossem reparadas e carroçadas.
O lugar escolhido ficava no gaveto das Ruas Dr. Francisco dos Prazeres e Nuno Álvares Pereira. As obras teriam tido início em 1923.
Tornou-se uma verdadeira escola técnica e por ali passaram gerações de aprendizes que, um dia, se vieram a tornar excelentes mestres.
Depois, a seguir ao progresso e ao empreendedorismo, veio a decadência e por fim o fecho das portas. Primeiro da unidade fabril, em cujo terreno foi levantado um moderno edifício de rendimento, e depois a própria agência de viagens em que se tinha tornado.
Foi das empresas com maior longevidade e mais marcantes da vida da cidade e da região. António Pinheiro faleceu na Guarda em 15 de março de 1955.
Investigador da história local e regional


