Opinião de Francisco Manso: A Sociedade de Transportes Lda. – Um marco na história da Guarda

Escrito por Francisco Manso

Até há pouco mais de cem anos, os transportes na região da Guarda pouco ou nada tinham evoluído desde os tempos da fundação da nacionalidade.
Morosos e lentos, eram, à semelhança do que se passava no resto do país, poucos, desconfortáveis e muito caros. Estradas, verdadeiramente ditas, não havia, para além da Estrada Real nº 55, em “macdam”, complementada por uma rede de caminhos que ligava as aldeias entre si e com a cidade.
De resto, todos andavam a pé e muitas vezes descalços, por caminhos empoeirados no Verão e enlameados no Inverno, fazendo curtos trajetos, e que, por isso mesmo, levava a que quem nascesse numa terra, por ali casava e morria, apenas sabendo do que se passava no resto do país quando se deslocava a alguma feira ou mercado, ou algum almocreve por ali passava, oferecendo “necessidades” e levando novidades, atrasadas e distorcidas, como as sardinhas que transportava, e que, apesar de mal cheirosas, ele garantia terem sido acabadinhas de pescar há cinco ou seis dias na Figueira da Foz ou Aveiro.
É certo que já havia a diligência que fazia serviço para Lamego, Viseu, Covilhã e Castelo Branco, mas era tão incómoda e cara que ficava inacessível ao povo, que se limitava a olhar para ela num misto de curiosidade e alguma bisbilhotice, mas que não deixava de constituir já um sinal e fator de progresso e ligação ao exterior.

A Guarda e o comboio

Sede na rua Marquês de Pombal

Contudo, o grande salto qualitativo, em termos de acessibilidades, será dado, de uma forma indiscutível, com a construção do caminho-de-ferro. A partir daí, a Guarda e todas estas terras deixam de estar tão isoladas, já não é necessário fazer testamento antes de encetar uma viagem a Lisboa, os industriais já podem mandar vir maquinaria pesada para as suas fábricas, os lavradores já podem escoar os seus produtos, nomeadamente a batata, para os grandes centros de consumo, e todos eles já podem saborear uma sardinha fresca, mesmo que repartida por dois ou três.
Mas, a chegada do comboio à Guarda trouxe uma nova necessidade. É que, como a cidade se encontra situada num local alto e quase íngreme, inviabilizou tecnicamente o seu trajeto pela Guarda.
A alternativa encontrada foi um lugar, até ali quase ermo, com algumas quintas, logo a seguir ao Rio Diz e à Póvoa do Mileu, por onde, bem próximo, ficavam as ligações às bandas de Pinhel, Almeida, Sabugal e Espanha.
Ora, se era habitual para os residentes desses lugares deslocarem-se a pé ou numa cavalgadura até à cidade, não o era para quem chegava no comboio, com roupas inapropriadas e carregados de coisas inimagináveis.
Depois, havia, também, o correio, que, com a chegada do comboio, passou a ser feito com maior rapidez, regularidade e confiança, mas para isso tinha que ser transportado até à cidade.
Ou seja, desta combinação de fatores era mais que evidente que fazia falta que, de uma forma organizada e regular, houvesse quem transportasse o correio, os passageiros e seus bens, e as mercadorias para a Guarda.
E porque o negócio prometia ser lucrativo, foram várias as empresas que se constituíram expressamente com o objetivo de explorar publicamente esses serviços entre a Estação e a cidade.
Assim, e só para citar algumas, nasceram a Companhia de Viação e a Nova Companhia de Viação.
Os anos foram passando, mas porque o negócio talvez não fosse assim tão chorudo, pois muitas das pessoas, nomeadamente estudantes, continuavam a vir a pé, ou também porque não estivessem bem organizadas, essas empresas foram ficando pelo caminho.
Entretanto, a Estação da Guarda é que não parava de se desenvolver e rapidamente, de lugar insignificante e ermo, passou a ter uns abarracamentos de madeira, depois algumas casas, melhores, mas ainda de madeira.
A primeira casa de pedra foi de José Ferreira, comerciante de produtos agrícolas, e a segunda de António Pinheiro.

António Pinheiro

António Pinheiro nasceu em Rocamonde, concelho da Guarda, em 31 de julho de 1876.
Com 18 anos feitos resolveu deixar a oficina de alfaiate do pai e o aconchego da família e seguir nova vida. Vem para a Guarda e emprega-se como guarda-livros na casa de António Ferreira. Ali, em contacto com um mundo novo, rapidamente se apercebeu que era indispensável um transporte condigno e adequado das pessoas e bens para a cidade, e também no sentido inverso.
Com esse objetivo, decide abandonar o emprego e criar a sua própria empresa de transportes.
Faz um contrato com a Linha do Caminho de Ferro da Beira Alta e, com uma carroça puxada por mulas, lá vai levando e trazendo o correio e os passageiros que aparecessem.

A primeira camioneta

Pouco depois, ou porque o negócio lhe sorria, ou ainda pelas muitas reclamações que aquele tipo de transporte motivava, resolveu-se a comprar uma camioneta para fazer a “carreira” para a Guarda.
Assim, em 1920, ignorante dos procedimentos necessários, mas determinado, vai de abalada até Lisboa proceder à sua aquisição.

Uma camioneta de entregas

Negócio feito, e de regresso à Guarda, assiste orgulhoso ao sucesso e curiosidade que a camioneta despertava por todos os sítios por onde passava.
Já com a concessão dos transportes entre a cidade e a estação, e na eminência do sucesso, propõem-lhe a constituição de uma empresa maior. Ciente das vantagens que poderia obter, concorda e é assim que, em 11 de outubro de 1920, é constituída a Sociedade de Transportes, Lda.

A Sociedade de Transportes Lda.

No entanto, só passados dois anos, em 27 de fevereiro, com a admissão de mais oito sócios, passando a ser 12 no total, é que a empresa vai efetivamente arrancar, com um capital de 130 contos.
Entretanto, a filha de António, Maria dos Anjos, casa com Manuel Carlos Godinho, um homem empreendedor e já com alguma experiência do sector de transportes. Dinamiza a empresa, da qual virá a ser o principal acionista, visto que a sua esposa era filha única.
A sede da empresa ficou na Rua Marquês de Pombal, entre a “Mobiladora” do Sr. Freitas e a célebre casa do “João do Grão”, numa reentrância que a rua então tinha.

Mudança de instalações

Em 1949, havendo necessidade de corrigir o traçado dessa rua, bem como da Alves Roçadas e do espaço envolvente da Igreja da Misericórdia, o prédio foi deitado abaixo.
Foi reconstruído, mais recuado, sob projeto do arquiteto António Patrício Portugal, e nele se instalou, em 1953, sem estar ainda completamente acabado, a Sociedade de Transportes.
Na altura, para além de “Serviço combinado com os Caminhos de Ferro” e de servir de “Despacho Central da Guarda”, tinha camionetas de aluguer para passeios e excursões, “camions” para transporte de mercadorias.
Depois, foi um nunca mais parar de crescer: mais empregados e mais viaturas para fazer face ao movimento e a solicitações sempre maiores.

Antiga camioneta de distribuição

E porque o número de viaturas da empresa já era significativo e precisavam muitas vezes de reparações, e como o parque automóvel da região, nomeadamente camionetas, também estivesse em franca expansão, foi tomada uma decisão de grande impacto na vida da empresa e da própria cidade: criar uma unidade fabril onde as viaturas, próprias ou não, fossem reparadas e carroçadas.
O lugar escolhido ficava no gaveto das Ruas Dr. Francisco dos Prazeres e Nuno Álvares Pereira. As obras teriam tido início em 1923.
Tornou-se uma verdadeira escola técnica e por ali passaram gerações de aprendizes que, um dia, se vieram a tornar excelentes mestres.
Depois, a seguir ao progresso e ao empreendedorismo, veio a decadência e por fim o fecho das portas. Primeiro da unidade fabril, em cujo terreno foi levantado um moderno edifício de rendimento, e depois a própria agência de viagens em que se tinha tornado.
Foi das empresas com maior longevidade e mais marcantes da vida da cidade e da região. António Pinheiro faleceu na Guarda em 15 de março de 1955.

Investigador da história local e regional

Sobre o autor

Francisco Manso

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