Tem-se falado muito nos últimos dias da “Doutrina Monroe”, primeiro exposta em 1823 no congresso norte-americano pelo presidente James Monroe. Diz-se que essa doutrina teve uma forte intervenção do secretário de Estado John Quincy Adams, mas foi Monroe quem ficou com a autoria. Os princípios essenciais consistiam na não aceitação da interferência europeia nas Américas e da não interferência americana na Europa. A doutrina foi sucessivamente interpretada e reinterpretada até à atual versão: a América Latina é o quintal da América do Norte e é esta quem manda nas Américas.
O que vimos nos últimos dias na Venezuela é uma manifestação dessa doutrina, nesta última interpretação, e tem como causa não a diretamente invocada (o tráfico de droga da Venezuela para os EUA), mas o acesso às terras raras e ao petróleo da Venezuela. Tudo isto sem a mínima consideração pela Carta das Nações Unidas. Trump quer governar a Venezuela e quer o petróleo da Venezuela porque sim e porque pensa que pode.
Outro presidente norte-americano, Woodrow Wilson, proclamou em 1918 outro princípio, infelizmente esquecido, o de que «as nações devem consentir em reger a sua conduta umas para com as outras pelos mesmos princípios de honra e respeito pelo direito comum da sociedade civilizada que governam os cidadãos individuais nas suas relações uns com os outros».
É do interesse dos EUA o domínio da Gronelândia, não só pelos seus recursos naturais mas também pela sua posição geográfica face à Rússia; também será do seu interesse o domínio completo da América do Norte com a integração do Canadá, como Trump já disse.
Perante tudo isto, e face ao que está a acontecer na Venezuela, percebe-se melhor a indiferença de Trump face à questão ucraniana. Se não houver aí nada a ganhar, será uma simples questão europeia e não teremos certamente os EUA a empenharem-se mais por uma questão ética. Perdido o Nobel da Paz, há apenas interesse no cumprimento da agenda geoestratégica e na afirmação da esfera de influência americana: as Américas e a Gronelândia. A Rússia que retire o que quiser da Europa e a China que se apodere de Taiwan quando quiser.
Será interessante ver o que se segue. Os tribunais norte-americanos são mais independentes do que os venezuelanos e não está garantida a condenação de Nicolás Maduro. Raptar este foi fácil, mas a sua saída de cena não implica uma mudança de regime. A vice-presidente e as forças armadas exigem a libertação de Maduro, e também a China – principal parceiro comercial da Venezuela. A ocupação do terreno e a instalação pelos americanos de um governo provisório não parece viável.
A atuação dos americanos é condenável e institui definitivamente a regra do domínio do mais forte, com o abandono de princípios e das regras de convivência entre as nações. É também uma demonstração da total falta de ética da direita populista. Mesmo assim, não vamos esquecer que, na Venezuela, um quilo de arroz custa dois dólares e que um professor universitário ganha tão só cem dólares por mês. A corrupção e a pobreza são generalizadas e o Estado deixou de funcionar. A economia resume-se ao petróleo, vendido à China a preços de saldo. Das torneiras não sai água potável e Trump está-se borrifando para isso. Só lhe interessam o petróleo e as terras raras.


