Editorial de Luís Baptista-Martins: Ano Novo, nova ordem mundial

O mundo está dividido entre os que se regozijam com a operação americana, de “libertação do povo venezuelano”, e os que consideram inaceitável que um estado capture o chefe-de-estado de outro país

Entre festas, balanço do ano velho e perspetivas para o ano novo Donald Trump mostrou quem manda no mundo captando o presidente da Venezuela. Qual pistoleiro encartado, o presidente americano tirou da cama o ditador Nicolás Maduro e mulher numa operação militar rápida e limpa (sem nenhum militar americano sacrificado – os 80 venezuelanos mortos não contam…).

Não se conhece o guião para o que se irá passar, mas, para já, o poder despótico de Maduro foi interrompido ainda que se mantenha nas mãos dos “chavistas”, para já. Um presidente ilegítimo foi destituído (as eleições presidenciais na Venezuela em 2024 foram ganhas por Edmundo González Urrutia entretanto exilado), mas com uma população pobre – 70% dos venezuelanos vivem no limiar da pobreza e um quarto da população, mais de oito milhões de pessoas, fugiram da Venezuela nos últimos 10 anos, no maior fluxo migratório do continente e o maior do mundo sem guerra, para fugirem à opressão, perseguição e carência – ainda que ninguém no mundo ao longo de 10 anos se tenha preocupado muito com isso e muitos A Venezuela, que em 1960 tinha o dobro do rendimento per capita de Portugal, e por isso tantos portugueses emigraram para aquele país sul americano à procura de sorte, tem uma das taxas de rendimentos per capita mais baixa do continente (no início do governo Maduro após a morte de Chávez, o PIB per capita desabou de 12.607 dólares para 1.506. Numa década, a riqueza média do venezuelano encolheu quase 90%).

O mundo divide-se, mas a ação de Trump levanta muitos problemas: se as grandes potências começarem a raptar os líderes dos países de que não gostam, ninguém poderá sentir-se seguro onde quer que seja. Pior, voltamos a ter de lidar com a influência e o poder imperialista de alguns: Putin poderá agora dizer que a invasão da Ucrânia é um ato similar ao que Trump fez em Caracas ou a China poderá tomar Taiwan seguindo o exemplo de Trump – e ficamos à espera do próximo passo americano em Cuba ou na Gronelândia. A nova ordem mundial poderá não ter ordem ou ser a anarquia decidida pelo poder e pela força e sem qualquer respeito pelo direito internacional ou sequer pelo direito à autodeterminação dos povos.

O mundo está dividido entre os que se regozijam com a operação americana, de “libertação do povo venezuelano”, e os que consideram inaceitável que um estado capture o chefe-de-estado de outro país. Perante o espanto mundial, a contestação de alguns, a inépcia das Nações Unidas e o apoio de muitos Trump prepara-se para fazer o que quiser, pois ninguém tem como o parar. Afinal, a nova ordem mundial será a ordem que Trump quiser.

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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