Opinião de Ricardo Neves de Sousa: Entre fundos e silêncios, o interior continua à espera

Durante anos repetiu-se o mesmo refrão: “faltam fundos, faltam meios, faltam condições”. E, curiosamente, enquanto o discurso se mantinha, os fundos chegavam. Muitos! Europeus, nacionais, setoriais, estruturais, resilientes, sustentáveis e “transformadores”.

O problema é que o interior continua à espera da transformação. Talvez esteja na hora de assumir o óbvio, ou melhor dizendo, o maior problema do interior não é a falta de dinheiro. É a falta de coragem política.

Não é confortável dizê-lo, mas é necessário. O interior não precisa de mais planos cheios de boas intenções. Precisa de lideranças dispostas a incomodar, a romper com rotinas, a contrariar interesses instalados e a pagar custos políticos. Porque transformar um território envelhecido, pouco competitivo e a perder população não é consensual. Nunca foi e nunca será.

Criou-se uma dependência perigosa, a dos “fundos salvadores”. A ideia de que cada problema se resolve com mais um aviso, mais uma candidatura, mais um envelope financeiro. Como se o desenvolvimento fosse automático, bastando preencher formulários. Não é.

Há municípios com menos fundos e mais futuro e há municípios com muitos fundos e cada vez menos gente. A diferença não está nos milhões recebidos. Está nas escolhas feitas, designadamente, onde se investe, para quem se investe e com que visão de médio e longo prazo.

Liderar o interior exige dizer “não” muitas vezes. Não a projetos simpáticos, mas inúteis. Não à pulverização de recursos. Não ao conforto do “sempre foi assim”. Exige concentrar investimento, fechar portas que já não fazem sentido, reavaliar serviços, mudar prioridades e aceitar conflito político. E isso, convenhamos, é tudo menos popular.

É mais fácil inaugurar do que reformar. É mais fácil anunciar do que decidir. É mais fácil agradar do que liderar. O interior sofre de um mal silencioso, como uma espécie de anestesia, que é o consenso permanente. Todos concordam que o problema existe, todos concordam que é grave, mas poucos estão dispostos a enfrentar as suas causas reais.

O resultado é uma política morna, que não incomoda ninguém e não muda nada. Ora, territórios em declínio não se salvam com política morna.

Então, de que é que o interior precisa, afinal? Precisa de líderes que aceitem perder votos hoje para ganhar futuro amanhã. Que troquem a lógica do subsídio pela lógica da competitividade, que assumam que nem tudo pode ser salvo, mas que o essencial tem de ser fortalecido e que percebam que desenvolvimento não é distribuir, é priorizar.

O interior não precisa de heróis nem de iluminados. Precisa de responsáveis.
Responsáveis o suficiente para dizer o que não é popular. Corajosos o suficiente para fazer o que é necessário. Porque, no fim, o maior risco não é errar. O maior risco é continuar confortável… enquanto o interior se esvazia.

* O autor escreve ao abrigo dos antigos critérios ortográficos

Sobre o autor

Ricardo Neves de Sousa

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