Mitocôndrias e Quasares de António Costa: Luz, química: fotografia!

Escrito por António Costa

A fotografia analógica tem vindo a ganhar novo fôlego. O que parecia ultrapassado pela tecnologia digital volta a despertar interesse entre estudantes, artistas e curiosos. Fotografar em filme obriga a pensar antes de disparar: escolher a sensibilidade do material, antecipar o contraste, decidir como a luz será registada e, mais tarde, ampliada.
No filme, cristais de halogeneto de prata reagem quando absorvem energia luminosa. Essa energia liberta eletrões que alteram a estrutura dos cristais, formando uma imagem latente invisível, mas já correspondente à distribuição de luz da cena. Este momento inicial é um exemplo claro de fotoquímica: a luz modifica a matéria e cria um padrão físico que servirá de base para a fotografia.
No laboratório, a revelação amplifica esse padrão. O revelador reduz seletivamente os cristais alterados, transformando-os em prata metálica opaca, enquanto o fixador remove os cristais que não reagiram. O contraste e a definição da imagem dependem da temperatura, do tempo e da composição química, que controlam a velocidade das reações e a distribuição dos tons. A fotografia torna-se assim o resultado direto de escolhas técnicas que influenciam fenómenos químicos mensuráveis.
O grão é outra demonstração dessa relação entre ciência e estética. Filmes de alta sensibilidade usam cristais maiores, que reagem melhor à luz, mas originam uma textura granulada mais visível. Filmes lentos recorrem a cristais menores, oferecendo maior detalhe. A aparência final da imagem está profundamente ligada às propriedades físicas dos materiais que a constituem.
Na ampliação, os mesmos princípios voltam a manifestar-se. O negativo projeta luz sobre papel fotossensível, onde surge uma nova imagem latente. A revelação do papel transforma-a em prata metálica, criando zonas escuras e definindo o contraste. O tipo de papel, a quantidade de prata e o modo como é tratado influenciam brilho, profundidade dos pretos e gradação tonal. Cada cópia é um produto cumulativo de processos óticos, fotoquímicos e de difusão.
Compreender esta cadeia de transformações ajuda a explicar o renovado interesse pela fotografia analógica, que oferece uma experiência tangível da ciência que transforma luz em imagem. Não se trata apenas de estética, mas de observar como fenómenos físicos e químicos se combinam para produzir resultados consistentes e expressivos.
O momento atual convida também a revisitar a obra de grandes fotógrafos do século XX que exploraram plenamente o potencial da película. Entre as propostas disponíveis, merece nota a exposição dedicada a Lee Miller na Tate Britain, que revela como a técnica analógica sustentou a amplitude do seu trabalho, desde as experiências associadas ao surrealismo francês até às imagens marcantes de moda e de guerra.

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