Guarda, linha alta que me atrai,
luz que vigia, clarão que me envolve.
Cheguei com o mar nos ouvidos,
a onda guardada como promessa,
e a infância dobrada na mala leve.
O verde do Minho colado à pele,
o Cávado em mim como vigia fiel.
De longe vim, coração sem tutela,
e tu disseste: entra
e a alma foi nela.
Eu, que era do mar, encontrei serra e quimera;
na tua margem, a água que me espera.
O Mondego canta sem dogma nem regra,
neste religare – ponte que nunca se quebra.
A fé é corrente, memória que lavra;
saudade navega, ausência se grava.
Religa o que o tempo descepa e desgarra,
cose a distância, dá chão à esperança.
Guarda-me em ti
Aqui tudo respira noutra cadência:
não é o corpo que muda, é a consciência.
A luz vem alta, a sombra tem ciência;
o silêncio é língua, a escuta é presença.
Sobe-se não para ver longe, mas para ver melhor
para chamar o pensamento maior.
O frio não castiga, molda e acende;
o quente não distrai, congrega e defende.
O vento que passa é mestre que entende,
fundamento que no peito se prende.
A raia é palavra que abraça e sustenta,
linha que cose e que não ausenta;
fronteira que une, que vive e apresenta
a coragem antiga que nunca se arrebenta.
Guarda-me em ti.
Reconheço-te pelo gesto e pela hora serena:
calor que envolve, sinal que enlaça;
força que sustém, palavra que abraça;
fermento que é ternura, mesa que congrega candura.
Vejo amigos na raia que sabem a cartilha,
caminhos antigos, veredas, partilha;
vejo futuros que brilham, luz no saber,
promessas que se trilham.
E há um amor que me guia, voz que me embala
na Guarda, onde a razão se encontra com a alma.
Aqui encontro a força das mulheres e homens da lã,
do frio, da fábrica, do labor;
gesto que se repete e tece o dia,
fio que sustém o tempo e parte da sua dor.
Obrigada, Carolina Beatriz Ângelo —
essência firme, porta que se abre, coragem segura;
na sua figura, o país renasce:
justiça que fala sem pedir licença.
A cidade não é rodapé nem rodilha;
não é margem vazia que a pressa humilha.
O interior não é atraso empilhado
é memória de ferro, é futuro iluminado.
Há um poder central que joga com a falha,
chama de “inevitável” o que a obra não talha;
nós respondemos serenos: basta de mortalha
queremos presença, não pose que falha.
Queremos escola que fique, saúde que chegue,
cultura que erga o que a pressa não mede;
estrada que una, ferrovia que segue,
tecnologia que inclua e não negue.
Queremos o país inteiro a acontecer sem cartaz,
não só no calendário que volta e nos faz;
a Guarda é alta, e da sua paz se vê melhor
o país que ainda o país não vê.
Guarda-me em ti!
E o rio, paciente, persiste na lida:
religare – reata a ferida.
Entre vivos e ausentes tece a medida:
água que junta o que a perda divide.
Na beira encontro os meus, pai, mãe, irmãos,
a casa que vindima;
a água traduz o que a dor não declina,
e faz regressar o que a ausência destina.
O frio ensina, o quente reúne,
a mão calejada abriga e perfuma;
a porta que abre dá corpo ao costume,
a amizade que fica não marca o volume.
Resistimos sem furor, mas com constância de lume;
o tempo aqui diz verdade, sem ruído nem fumo;
quem vem de fora descobre sem sumo
que o pão e o lugar são o mais alto resumo.
E eu digo-te, Guarda, sem trombeta nem alarde:
altitude que pensa, cidade que se ergue como serra.
Se o poder nos visita apenas de passagem,
não conhece o nosso ritmo nem compreende a nossa terra.
O interior não é espera nem concessão:
é compromisso, é projeto que rompe a inércia e desafia a desculpa.
É cidadania inteira, que se afirma com serenidade;
é justiça concreta, que redesenha o mapa com presença.
Guarda, tu guardas sem grades nem sela:
guardas com vento que alinha a vela;
guardas com pedra, com voz que não cela,
guardas com gente e com água que é capela.
Guarda-me em ti!
Eu vim de longe e hoje moro em ti
e então floresci;
amor é o ofício que me sustém e me diz:
fica, que a casa és tu. E aqui sou feliz.
Raiz encontrada, país visto do alto,
fronteira que une, caminho sem salto;
rio que devolve o que o tempo nos tirou,
serra que acolhe o que a vida pensou.
Obrigada por me revelares, por me guardares,
por me chamares ao fio que liga os lugares;
que este dizer seja fazer nos teus andares:
religare – ligar de novo os nossos lares.
Que o teu frio seja escola de rigor,
que o teu quente seja coro de comunhão,
que a tua raia seja abraço soberano
encontro que afirma, sem renúncia nem concessão.
Que a tua gente seja sempre o tesouro,
e que da tua altitude o país se revele inteiro.
Guarda-me em ti
como quem se demora para aprender a ver.
Guarda-me em ti
onde a luz se abre como claridade e o silêncio se faz horizonte.
Guarda-me em ti
porque aqui descobrimos que existir não é apenas chegar,
é permanecer, é compreender, é viver.
Guarda-me em ti.
* Elogio à Guarda lido na sessão solene do 826º aniversário da fundação da cidade


