Quando o feriado municipal da Guarda era em maio – dia 3, acho – os guardenses armavam-se de cestas de piquenique a transbordar de rissóis, croquetes e pastéis de bacalhau, regados a laranjadas Couto, Sepol e Cristalina, e iam todos festejá-lo para a Santa Cruz. Com sorrisos e animação suficientes, os mais novos desprezavam as boleias dos pais e as camionetas de carreira, que esperavam pelos passageiros na Rua Batalha Reis, e preferiam percorrer a pé a meia dúzia de quilómetros que os separava da festa. Nessa altura, em dia de feriado municipal, a cidade gostava de se entornar, alegre e despreocupada, estrada abaixo para o assinalar. Contudo, tamanha festa, aquela de alegremente se ir comer tanta fritura, misturada com o açúcar dos refrigerantes, para os arrabaldes de Aldeia do Bispo, há de ter feito tanta impressão à pequena elite da urbe que até a fez pôr-lhe fim. Enquanto não se acabasse com o feriado em maio, a saúde do fígado dos guardenses perigava.
Vai daí, alguém se lembrou de mudar o feriado da Primavera para o Outono. Os dias curtos e frios haveriam de ajudar a acabar com aquilo, concluíram os do fato e gravata. E, pronto, terá sido mais ou menos assim que a data de assinatura do foral, concedido por D. Sancho, o primeiro, substituiu a da festança da Santa Cruz. Claro que o facto de qualquer ato de “assinatura”, mesmo sem ser real, remeter logo para a solenidade das coisas bem enfarpeladas também há-de ter ajudado, mas sempre tive cá para mim que os principais responsáveis da mudança terão sido mesmo os malefícios daquela peregrina dieta.
Fosse lá pelo que fosse, o certo é que, em menos de um ai, os guardenses acabaram expropriados do seu feriado municipal e das missas em “honra e louvor” do senhor da Santa Cruz, que foram substituídas pelas “em memória” (ou qualquer coisa do género) de D. Sancho que, não tendo sido nenhum santo, acaba a ser o nosso único padroeiro. Ou melhor, com o destino a deixar de se apaixonar pela coragem dos homens para se dedicar à iconografia, o que acaba por ser nossa padroeira é a estátua do D. Sancho. A mesma que, após colocação no meio da Praça Luís de Camões, vulgo Praça Velha, terá começado por servir para assustar as crianças que não queriam comer a sopa, serve agora, numa imitação barata das grandes ditaduras, para agregar as ridículas coreografias do pequeno poder com pretensão a agigantar-se em minúsculos tons circunspectos, mais cinzentos do que a gravata que ostenta, amparados pelas notas da banda convocada para o efeito.
Ora, uma cidade que a tais propósitos se dá nem, sequer, da falta de atenção ao seu património se poderá queixar. Depois de deixar que a comemoração do feriado municipal lhe fosse tirada para a darem aos figurões dos salões, de deixar que as feiras de S. João e S. Francisco fossem trocadas pelas fartas, as aldeias e ruas por bairros e o bolo podre pela bola parda, claro que não se queixará. Até porque, como bem se vê, jamais deixarão que a estátua do D. Sanco lhes falte. Essa e a possibilidade de, depois de regressar das compras que, no dia 27 de novembro, vão fazer a Viseu ou Salamanca, visionar online as comemorações do feriado municipal. Caso para pensar: mais apegados do que nós a imagens da (re)invenção do passado e, simultaneamente, a todas as modernices nem haverá.


