Opinião de Francisco Manso: O conde da Guarda

Escrito por Francisco Manso

Em artigos anteriores analisámos a génese e formação dos títulos e titulares do distrito da Guarda, e mais especificamente o conde da Guarda e respetiva família. Hoje, damos por terminado este processo com o atual conde da Guarda. Estou certo que poucos saberiam que a Guarda ainda tem conde, só por isso, mais não fosse, valeu a pena esta reflexão sobre o nosso passado e o nosso presente.

Conde da Guarda, D. Pedro de Lancastre. Foto O Interior

D. Luís de Oliveira de Almeida Calheiros e Menezes, filho varão legitimado do 1º conde da Guarda, D. Luís de Oliveira de Almeida Calheiros e Menezes, seu homónimo, e de Amália Rossini, nasceu em Lisboa, a 20.11.1846. Veio a ser 2º Conde da Guarda, por despacho de concessão de 22 de agosto de 1892, quatro anos após a morte do pai.
Casou com Maria das Dores Melo e Castro, sua prima. Homem de visão, procurava uma agricultura moderna e rentável, foi «um dos mais ilustrados agricultores e opulentos lavradores de Lisboa». Foi um grande apaixonado da tauromaquia, sendo um dos maiores impulsionadores da construção da Praça do Campo Pequeno. Era um “gentleman” e um benemérito.
Faleceu a 01.02.1917, em Lisboa, quando se preparava para assistir a uma missa por alma de D. Carlos, seu grande amigo. Por sua morte, o palácio de Arroios, sua residência, com cerca de 100 divisões, foi posta em leilão. O mesmo aconteceu ao recheio.
Do casamento houve sete filhas e um filho:
– Maria da Conceição de Oliveira Calheiros e Meneses. Nasceu em Lisboa a 15 de dezembro de 1879 e morreu a 17 de junho de 1904;
– Maria Luísa de Oliveira Calheiros e Meneses, que virá a ser a 3ª condessa da Guarda;
– Maria Emília de Oliveira Calheiros e Meneses, que nasceu em Lisboa a 24 de fevereiro de 1882 e morreu a 5 de maio de 1929. Casou com D. Sebastião de Lancastre;
– Maria Ana de Oliveira Calheiros e Meneses, que nasceu a 15 de março de 1883;
– Maria Teresa de Oliveira Calheiros e Meneses, que nasceu a 11 de dezembro de 1884 e morreu a 23 de abril de 1952;
– Luís Maria de Gonzaga de Oliveira Calheiros e Meneses, que nasceu a 30 de junho de 1887 e morreu de tuberculose em França, onde tinha ido em busca da cura, a 3 de janeiro de 1909;

D. Luís de Oliveira e Almeida Calheiros e Meneses

– Maria da Assunção de Oliveira Calheiros e Meneses, que nasceu a 12 de agosto de 1888 e morreu a 14 de junho de 1971;
– Maria Adelaide de Oliveira Calheiros e Meneses, que nasceu a 14 de janeiro de 1891 e morreu a 5 de dezembro de 1962.

3ª condessa da Guarda, D. Maria Luísa de Oliveira de Almeida Calheiros e Meneses

D. Maria Luísa, filha segundogénita do 2º conde da Guarda, veio a tornar-se condessa da Guarda, a 3ª, porque a filha primogénita do 2º conde, D. Maria da Conceição, e o filho varão, D. Luís, que seriam os naturais herdeiros do título, já tinham falecido à data da morte do pai, D. Luís de Oliveira.
Maria Luísa nasceu em Lisboa a 26 de março de 1881 e casou, em 1900, com Estevão Pereira Palha Van Zeller (1873-1942. Estevão, já o pai, Francisco Van Zeller, deputado e Par do Reino, era falecido, fundou, juntamente com a mãe e três irmãos, a conhecida Sociedade Agrícola Pereira Palha Van Zeller, dotada de imenso património no Alentejo e Ribatejo.
D. Maria Luísa usará o título por alvará do Conselho de Nobreza de 1 de maio de 1952. Faleceu a 17 de abril de 1958, sem geração.

4º conde da Guarda, D. Pedro Calheiros de Lancastre

Como do casamento da 3ª condessa com Estevão Palha van Zeller não houve descendência, vai ser Pedro Calheiros de Lancastre, filho primogénito de D. Maria Emília, na altura já falecida, a herdar o título de conde da Guarda.
D. Pedro Calheiros de Lancastre, filho primogénito de Maria Emília de Oliveira Calheiros e Meneses e D. Sebastião Henriques de Lancastre, nasceu em Lisboa, a 24 de março de 1903. A 3ª condessa, sua tia, faleceu em 1958 e pouco depois, em 1959, por alvará do Conselho de Nobreza de 2 de junho, passará a titular como 4º conde da Guarda. Na mesma altura, foi-lhe passado certificado de reconhecimento do direito ao uso de dom. Licenciou-se em Engenharia Civil e Eletrotónica, tendo trabalhado na Companhia Marconi. Casou com Maria Teresa Ferrão de Castelo Branco. D. Pedro faleceu em Lisboa a 11 de janeiro de 1977.

5º conde da Guarda, D. Sebastião Manuel de Lancastre

Sebastião Manuel de Lancastre, filho dos 4ºs condes da Guarda, nasceu em Lourenço Marques (Moçambique) a 4 de outubro de 1933.
Era licenciado em Engenharia de Minas, vindo a ser diretor geral das Minas de Jales, fundador da Granital e diretor geral da Unicre. Foi 5º conde da Guarda por alvará do Conselho de Nobreza de 10 de maio de 1979, tendo na altura recebido certificado de reconhecimento do direito ao uso e tratamento de dom. Casou com Margarida Maria da Câmara Ribeiro Ferreira, bisneta paterna do 3º conde de Belmonte, a 5 de julho de 1958. Fundadora do Museu das Crianças, foi agraciada com o grau de comendador da Ordem do Mérito pelo Presidente da República, prof. Aníbal Cavaco Silva, em 2012.

6º conde da Guarda, D. Pedro Ribeiro Ferreira de Lancastre

D. Pedro Ribeiro Ferreira de Lancastre, filho primogénito dos 5ºs condes, nasceu no Estoril a 28 de julho de 1963. É licenciado em Gestão de Empresas pela Universidade Católica Portuguesa. 6ª conde da Guarda desde 3 de novembro de 2015, com certificado do Instituto da Nobreza Portuguesa. Casou com Carlota Furtado de Carvalho Sales Luís, nascida a 30 de setembro de 1977, em Campinas, estado de S. Paulo (Brasil). Do casal têm descendência duas filhas; Caetana Furtado Ribeiro Ferreira de Lancastre, nascida em Lisboa, a 23 de abril de 2009, e Luísa Maria Furtado Ribeiro Ferreira de Lancastre, nascida a 23 de julho de 2012.

Uma família desportiva

Três filhas de D. Pedro Ribeiro Ferreira de Lancastre, o 2º conde, Maria da Conceição, Assunção e Teresa, eram excelentes praticantes de ténis, um desporto ainda a dar os primeiros passos de afirmação em Portugal. Se tinham em comum o gosto e habilidade desportiva também uma fatalidade acompanhava a família: a tuberculose.
Segundo o “Diário Illustrado”, de 19.6.1904, «Causou profunda impressão em Lisboa, a morte de Maria da Conceição Calheiros, gentilíssima filha dos srs. Condes da Guarda, e uma das mais insinuantes e mais queridas da nossa élite. Dotada das mais belas qualidades, extremamente bondosa, a srª D. Maria da Conceição Calheiros, deixa profundíssimas saudades em quantos tiveram a dita de privar com ella…O lawn tennis contava-a nas suas fileiras como as milícias contaram seus avós nas suas.

Palácio dos Condes da Guarda, atual Câmara de Cascais

Era uma vocação definida, era toda a sua elegância de sportswoman vitoriosa, era sempre a parceira predilecta de Sua Majestade El Rei…
A srª D. Conceição da Guarda foi victimada pela terrivel tuberculose que a retinha no leito há cerca de onze meses. O desenlace final, que não era esperado tão cedo, deu-se em seguida a uma hemorragia. A desolada família, que tinha acabado de jantar, foi sobressaltada pelos gritos da creada da enferma, e correndo imediatamente para junto do leito, tanto a mãe como o pai poderam ainda ouvir as últimas despedidas da moribunda, que perfeitamente conhecia o seu estado. Próximo da noite foi a extinta vestida com o habito de Nossa Senhora da Conceição, todo em seda branca…”
A revista Tiro e Sport afirmava ser “uma das mais distinctas senão a mais distincta jogadora de tennis».
O seu médico assistente era D. António de Lancastre, que muito contribuiu para a edificação do Sanatório Sousa Martins e bastantes vezes veio à Guarda.

* Investigador da história local e regional

Sobre o autor

Francisco Manso

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